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por que é mentira que “There Is No Alternative”?

porque todo poder emana do povo, simples assim.

 

Sobre Greves

por Flávio Aguiar in Revista do Brasil

A primeira greve brasileira ocorreu no início de 1858, no Rio de Janeiro. Foi a greve dos tipógrafos da então Corte, depois capital federal e hoje capital do estado com o mesmo nome.

tipógrafos grevistas Arquivo Nacional

O Rio de Janeiro passava por problemas de carestia ou falta de gêneros alimentícios, e aumento de seus preços, bem como dos aluguéis. Havia, portanto, um processo inflacionário.

Os tipógrafos eram trabalhadores letrados, que tinham acesso a informações sobre o que se passava no resto do mundo, isto é, naqueles tempos e para eles, a Europa e os Estados Unidos. A classe ergueu-se no movimento paredista (como também se dizia então), reivindicando o aumento da féria (também como se dizia) em 1 mil-réis por dia. Resultado: praticamente paralisaram ou pelo menos prejudicaram seriamente a publicação dos jornais, ou “folhas diárias”. De 7 a 11 de janeiro estas folhas, que normalmente tinham quatro páginas de tamanho standard, saíram só com duas ou nem saíram. Algumas vezes aglomeraram duas edições numa só, como no caso do “Diário do Rio de Janeiro”, que juntou dois dias numa única publicação: 9 e 10 de janeiro.

Perplexos, os donos, acionistas e redatores-chefe dos jornais, reagiram com grande violência retórica, pedindo a repressão do movimento e a intervenção policial, “para destruir em nascença um mal que pode tomar grandes proporções”, conforme editorial conjunto publicado naquele jornal e também na “Gazeta Mercantil” e no “Jornal do Comércio”. Desconfio seriamente, pelo estilo do texto, que seu autor ou pelo menos revisor foi nada mais nada menos que José de Alencar, que era então o redator-chefe do “Diário”.

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O então ministro da Fazenda, o paraense e visconde Bernardo de Sousa Franco, mandou que os “compositores” da Tipografia Nacional, a ele subordinada, fossem furar a greve, substituindo os tipógrafos dos jornais. Entretanto, os trabalhadores da Tipografia Nacional reuniram-se em assembleia e se solidarizaram com seus colegas, o que levantou mais a ira dos patrões e seus aliados.

Dizia o mesmo editorial: “Eles (os tipógrafos da T. N.) quiseram fazer causa comum com os seus companheiros; o que bem mostra a aliciação que tem havido, e a espécie de sugestão que exercem alguns mais exaltados sobre outros de ânimo tímido e irresoluto”. E concluíam pedindo a referida intervenção da polícia, embora não dissessem o que ela deveria fazer. Embora possamos imaginar o que eles pensavam que ela deveria fazer.

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Nesta época, Machado de Assis, então com 18 anos, trabalhava na Imprensa Nacional, e sabe-se que alimentava ideias então tidas como “exaltadas”. Não resisti à tentação, e no meu romance “Anita”, coloquei-o na posição de discursar para aquela assembleia dos tipógrafos oficiais: “Houve debates acalorados. O Machadinho (como o grande escritor era conhecido na juventude), que nessa época era aprendiz de tipógrafo e tinha ideias esquentadas, foi. Fez um discurso inflamado. Terminou gritando: ‘’tipógrafos da Corte, uni-vos, nada tendes a perder…’ Não conseguiu terminar a frase, tal a massa de aplausos”.

Os donos de jornais estavam muito assustados. Dias antes houvera uma tentativa de movimento semelhante por parte dos acendedores de lampião nas ruas da cidade. Já os tipógrafos, comportando-se como membros de uma “aristocracia operária”, recusaram a comparação do seu movimento com o deles. Sabe-se disto através de detalhe curioso e importante.

Em consequência do movimento, os donos dos jornais demitiram os tipógrafos grevistas. Alguns deles reuniram-se numa espécie de cooperativa e passaram a publicar a sua própria folha diária, o Jornal dos Tipógrafos, que durou cerca de três meses.

manifestantes na ruaEm editorial anunciavam: “O artista (como se chamavam) hoje encontrou na arte (no ofício e na corporação) a sua verdadeira pátria (…), sua família é a classe, sua vida a força poderosa de seus indisputáveis recursos”.

Este jornal se encontra hoje na seção de livros raros da Biblioteca Nacional, e também já deve estar digitalizado. Tive a ventura de consulta-lo diretamente nas suas folhas, enquanto fazia minha pesquisa de doutorado sobre o teatro e, paralelamente, o jornalismo de Alencar.

Devido ao silêncio subsequente das demais “folhas diárias” sobre os desdobramentos da “parede”, não sabemos se os tipógrafos conseguiram seus mil-réis a mais na féria do dia. O certo é que eles fundaram o primeiro jornal alternativo do Brasil, com este espírito explicitamente marcado.

/////////////////////////////breve e resumido histórico recente/////////////////////////

* 1968: 25 mil metalúrgicos de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), e Osasco, na Grande São Paulo (SP), organizaram grandes greves de resistência à ditadura militar por aumento salarial e melhores condições de trabalho.

* 1978: dois mil metalúrgicos da Saab Scania de São Bernardo do Campo (SP) cruzaram os braços reivindicando aumento salarial. Operários da Volkswagen, Ford e Mercedes Benz seguiram seus pares e o movimento tomou proporções muito maiores.

* 1979: nova onde de greves acontece no país envolvendo agora metalúrgicos, professores, bancários, jornalistas, servidores públicos e da construção civil. Em Belo Horizonte, a Rua Espírito Santo, via que concentrava várias instituições bancárias, amanheceu tomada por policiais. Operários da construção fizeram uma assembleia no antigo campo do Clube Atlético Mineiro (hoje um shopping center) e saíram de lá rumo ao centro degradado da cidade, o tal “Baixo Belô”, depredando tudo que encontravam pela frente. Fomos testemunhas do rastro de destruição deixado no caminho por onde passaram. E foi algo… satisfatório ver aquilo.

* 1980: de novo em São Bernardo do Campo nova greve, que dura 41 dias e envolve mais de 300 mil metalúrgicos. Nasce o Novo Sindicalismo no país e um líder aparece: Luis Inácio da Silva, o Lula.

Claro que a lista não é exaustiva. Muitos movimentos paredistas aconteceram pelo Brasil. Fica nossa homenagem aos líderes anônimos que ajudaram a reconstruir o país e que contribuiram de alguma forma a escrever a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

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Já na BBC Brasil:

tomada geral fabrica

Em junho de 1917, décadas antes da consolidação das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 operários – em sua maioria mulheres – da fábrica têxtil Cotonifício Crespi na Mooca, em São Paulo, paralisaram suas atividades.

Eles pediam, entre outras coisas, aumento de salários e redução das jornadas de trabalho, que até então não eram garantidos por lei. Em algumas semanas, a greve se espalharia por diversos setores da economia, por todo o Estado de São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira “greve geral” no país.

Historiador Claudio Batalha, da Unicamp: “Não é uma greve que já tivesse bandeiras gerais. Ela começa com questões específicas dos setores que vão aderindo ao movimento grevista, alguns por solidariedade. Depois é que a pauta passou a incluir desde reivindicações relacionadas ao trabalho até reivindicações de cunho político – libertação dos presos do movimento, por exemplo.”

Uma destas questões específicas, menos comentada nos livros de história, era o assédio sexual. Segundo Batalha, parte da revolta das funcionárias do Cotonifício Crespi era o assédio que sofriam dos chamados contramestres, funcionários que supervisionavam o chão de fábrica.

“Isso não era incomum na época. Greves anteriores já haviam começado contra determinado funcionário que tivesse um cargo de chefia e tirasse proveito desse poder”, explica.

Em 1917, a indústria brasileira ia de vento em popa.

Na verdade, os lucros das empresas chegavam a duplicar a cada ano.

“Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, se passou de uma recessão econômica a um superemprego, porque os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados”, explica o historiador italiano radicado no Brasil Luigi Biondi, da Unifesp.

“Em 1914, o Cotonifício Crespi lucrou 196 contos de réis. No ano seguinte, o lucro foi de 350 contos de réis. E foi aumentando. Enquanto isso, aumentavam as horas de trabalho.”

Com o aumento da produção, as fábricas brasileiras, que tinham poucas máquinas, vindas do exterior, tiveram que usá-las por mais tempo. Isso significava que os operários passaram a trabalhar até 16 horas por dia, sem aumento de salário.

No final de junho, a paralisação dos operários do Crespi contagiou os 1.500 operários da fábrica têxtil Ipiranga. Em seguida, se espalhou pela indústria de móveis, concentrada no Brás, e chegou até a fábrica de bebidas da Antarctica.

“Em julho, a greve parou a cidade (São Paulo). Havia embates de rua e tentativa de saques aos moinhos que produziam farinha por causa da crise de abastecimento. Muitos foram mortos e feridos nos confrontos com a polícia”, diz Biondi.

O movimento ganhou mais fôlego no dia 11 de julho, quando milhares acompanharam o enterro do sapateiro espanhol José Martinez, de 21 anos.

Ele morreu com um tiro no estômago depois que uma unidade de cavalaria da polícia dispersou manifestantes que quebraram barris de cerveja diante da fábrica da Antartica, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, que noticiou o confronto.

“A partir daí, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de São Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeirão Preto. Até Poços de Caldas, no sul de Minas, que não era uma cidade industrial, teve movimentos de greve”, afirma o historiador.

Em 16 de julho – mais de um mês após o início da paralisação no Cotonifício Crespi – um acordo entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais, mediado por jornalistas, pôs fim à greve em São Paulo. Mais ainda não era o fim da greve geral.

“Só em São Paulo a greve de fato terminou com uma negociação única. No Rio e em Porto Alegre, os movimentos tiveram dimensões gerais, mas só terminaram na medida em que cada setor chegava a um acordo com seu patronato. O ritmo de saída da greve foi aos poucos, assim como a adesão”, explica Batalha.

Segundo Biondi, até mesmo na cidade de São Paulo ainda havia categorias entrando em greve no dia 18 de julho, como os pedreiros. Parte dos empresários se recusava a assinar os acordos e queria negociar condições diretamente com os funcionários.

Mesmo com a assinatura dos acordos, a consolidação dos direitos só viria em 1943, durante o regime de Getúlio Vargas.

“O que acontecia muitas vezes na época é que algo era obtido com uma greve, passava-se algum tempo e essa reivindicação voltava para nada”, diz Claudio Batalha.

“Em 1907, também houve uma série de greves pedindo a jornada de trabalho de oito horas. E elas chegaram a diminuir, mas, depois de algum tempo, o patronato voltou a estabelecer as jornadas anteriores. O mesmo ocorreu após 1917.”

A experiência da primeira greve geral também fez com que os empresários se preparassem para enfrentar futuras paralisações – o que tornou novas negociações mais difíceis para os trabalhadores.

“Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917 é que as fábricas não tinham estoques. Quando os operários paravam, não havia produtos nas lojas. A partir daí, eles passaram a ter grandes estoques, e podiam permanecer sem funcionar um certo período porque tinham produção para vender.”

Batalha lembra, no entanto, que o acordo só surgiu depois que “a greve atingiu dimensões tais que não tinha mais como controlar o movimento”.

“A primeira tentativa de lidar com a greve foi de repressão. Essa era a tônica do período, tanto que houve mortes. Parte do processo de ampliação da greve, inclusive, se deveu a essas mortes.”

Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na indústria têxtil deram início a protestos e a uma paralisação que teria consequências ainda maiores: a revolução russa.

“Essa greve também é importante porque mostra a conexão do Brasil com o resto do mundo. Naquele ano, greves como aquela ocorreram em diversos países”, diz Luigi Biondi.

Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a São Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organização do movimento.

“Por causa da Rússia, eles tinham a ideia de que aquilo poderia levar a uma insurreição dos trabalhadores. Isso não ocorreu, mas a cidade foi tomada. Pela primeira vez isso espantou as elites do país, que começaram a se dar conta de que a questão social urbana era grave e tinha que ser considerada.”

Batalha acha que as correntes socialistas “tinham certa liderança”, mas que sua influência era maior sobre trabalhadores qualificados.

“O que faz com que uma greve funcione é que as pessoas sintam que aquele estado de coisas chegou ao limite. Uma das características importantes de 1917 é que, pela primeira vez, setores que não participavam desse tipo de movimento começaram a participar.”

Quando você presta atenção…

…a uma marca e quer adquirir tal produto, é porque o trabalho de

publicitários,

consultores de marketing ou

assessores de imprensa está funcionando

(não por acaso a expressão “comprar por impulso” saiu das diabólicas “salas de criação” e caiu na boca do povo) .

O mesmo princípio (e método) é usado tanto para vender sabonetes quanto para eleger um político; serve para justificar genocídios (de índios, de negros e de pobres) ou para fazer meio país apoiar um golpe “contra a corrupção” (quem acha que os telejornais, rádios e impressos comerciais informam sem interesses próprios e conflitantes com a sociedade maior, é inocente demais).

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Se você quer continuar a ser um midiota, um idiota que pensa pela mídia, que o faça. Se quer, ao contrário, ter consciência (cum, com e scio, conhecer, no latim) não perca o documentário “O século do eu” (The Century of the Self) de ADAM CURTIS. Verá o que um tal Sr. Edward Bernays (ironia: sobrinho da mulher de Freud e residente e domiciliado nos Estados Unidos) fez com as teorias psicanalíticas em proveito do establishment político, social e econômico – e que ditam o caminho do mundo capitalista no qual vivemos.

Se depois de assistir não mudar seus conceitos a respeito de si e do mundo, esqueça que um dia exerceu a liberdade-de-ser.

(Partimos do princípio de que todos temos um mínimo de sensibilidade, né?)

Ato realizado em 1º de abril de 2017 em frente…

ao antigo Dops de Minas Gerais. A partir de 31 de março de 2018, será o Centro de Memória, Verdade e Justiça. 

 

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Fotos: Lidyane Ponciano

saem os meganhas, ficam seus fantasmas: no prédio e na memória dos que por lá passaram… que assim seja.

Eu estava com um amigo de escola. Tinha 16 anos de idade.

Queríamos conseguir um baseado para aquela tarde sonolenta e fomos depois da aula para o ponto, que meu colega conhecia. Fomos ao bar Doçura, na Floresta. Eu estava na porta do boteco quando vi o carro preto e branco escrito DOPS chegando. Os policiais-bandidos (ou bandidos-policiais: não havia uma barreira nítida que separasse esses dois seres) fizeram uma espetacular chegada com pneus relinchando, as portas se abrindo e aparecendo vários homens com enormes armas nas mãos gritando, gritando muito alto (não me lembro das palavras). Muitos jovens que ali estavam saíram correndo. Eu tive essa chance mas não o fiz e não sei por qual motivo. Fui empurrado com violência para dentro do bar. Lá estavam meu colega e alguns outros que tiveram o mesmo azar naquele local, naquele dia. Tudo aconteceu muito rápido mas minha certeza se deu desde o início: “estou preso”, pensei. Os caras continuavam a gritar mas era meu pensamento que falava mais alto. Não é fácil explicar o que sente alguém ao se descobrir nas mãos da polícia, ao constatar que está preso e que será encaminhado para uma jaula. Você não tem mais sua vida. É apenas um objeto inerme que pertence agora à polícia, ao estado poderoso e inescrupuloso.

Para um garoto de classe média abastada (ainda que em processo de falência), aos 16 anos, mais arraigado a sonhos mal traçados, sensível e frágil, aquilo parecia um pesadelo, um horror inapelável e não poderia acordar suando já que era a realidade. E o personagem era este próprio narrador, a trama era a vida real.

O único sentimento era de medo. O medo parecia tomar conta de mim: a violência que usavam os paus-mandados da lei fazia prever que a qualquer sinal de enfrentamento dariam como resposta um golpe desmedido, bastaria levantar a cabeça, seria bastante o menor gesto que denunciasse que você não se achava tão humilhado como queriam aqueles perversos e que a resposta seria um ataque gratuito, como mostraram desde que chegaram ao bar, senhores do mundo para “prender e arrebentar” todos. E quem vai contrariar aqueles seres nivelados a cães irracionais e condicionados cuja única função era descarregar uma fúria sanguinária? Eu não queria dar um pretexto.

O medo dominava tudo e todos.

Não entendia de onde tiravam tamanho ódio pois nos meus conceitos para violência entrava sempre uma reação a alguma ofensa pessoal inaceitável, uma defesa a algum atentado à própria integridade física, mas não: no caso daqueles “cães de aluguel” era o modus operandi do condicionamento pavloviano. Estavam a serviço de um mal entendimento do que seria a “segurança nacional”. Eles eram o Departamento da Ordem Política e Social, o temido DOPS!

Jovens totalmente alienados sócio-politicamente certamente não seriam ameaça alguma à ditadura civil-militar que dominava o país, mas alvos sim, porque sofreriam com os gritos bem perto dos ouvidos, com socos e pontapés e quem sabe morreriam nas mãos assassinas daqueles inescrupulosos: o Estado eram eles! Eles eram a polícia, eles tinham a força. E tinham que dar o exemplo. Qualquer um podia ser vítima.

Usar “tóxico” (alguns diziam “tóchico”, o que nos fazia rir), fumar maconha devia ser um motivo para favorecer a decadência da sociedade, para corromper a juventude que seria o futuro da nação. Qualquer um que usasse maconha estava condenado a pagar por seu crime de lesa-pátria, por isso era um problema de ordem política e social, caso de polícia, portanto, da polícia que vem para sanear a sociedade, limpá-la dos indesejáveis, dos desviantes, dos criminosos. Só ficam fora da cadeia os bem-aventurados. Preto, pobre e puta, maconheiros ou não, não têm a menor chance. Assim tem sido na história, assim tem sido até hoje.

 

Dentro da viatura

 

 Cena seguinte na minha memória: dentro do carro. Não sei como fui parar lá dentro do camburão, no tal “cofre” (devíamos ser mesmo muito valiosos. Um troféu que os cães apresentariam ao seu chefe, abanando os rabos, com as línguas prontas para uma lambida nas botas do delegado fazendo jus ao soldo e gratos por terem sido escolhidos ao léu para a missão que lhes fora designada, para a função que tanto lhes engrandecia. Melhor ser capacho dos delegados do que cair no crime nas comunidades de onde eram oriundos, melhor ser criminoso-policial do que criminoso-criminoso, melhor, melhor).  O cofre era totalmente fechado… e apertado. A viatura parte, de novo, com estardalhaço. Eu e mais uns três, sentados na lata em cima da roda traseira direita. Era um compartimento dividido ao meio, do outro lado talvez mais outros três. Não sei se era escuro. Imediatamente uma das vítimas que eu não conhecia começa a se desfazer de um frasco do colírio Moura Brasil, muito usado na época para tentar disfarçar os olhos vermelhos de quem havia fumado maconha. Notei um pequeno buraco na lata do chão do cofre, perto do meu pé (o compartimento devia ser escuro já que tal abertura apareceu irradiando a claridade do dia lá fora). O furo era muito menor do que o frasco. Isso não impediu que déssemos sumiço naquela prova contra cada um de nós. Mastiguei a tampa e consegui triturá-la e enfiar cada pedacinho no buraco. Imagino agora: cada pedacinho deixando uma trilha, uma pista do meu calvário até a delegacia… (Lembrança desencaixada mas inesquecível: como era macia a suspensão da viatura! Quanta maciez no meio de tanta brutalidade!)  

 

Dentro da delegacia

 

As cenas só me vêm à memória com certo esforço e tão-somente para este relato, após tanto tempo. É tudo fragmentado. Foi muito difícil escapar destas lembranças que agora tento trazer aqui. Ficaram por algum tempo constituindo material para o que se tornou à época um trauma. Eu me trancafiara dentro do redemoinho destas prisões: a física e a mnêmica. Peguei-me certa vez sonhando que estava pilotando um avião e o jogava, qual um kamikaze, sobre a delegacia. A vida continuava, mas o evento insistia em se fazer presente.

Não me lembro chegando à avenida Afonso Pena, sede do DOPS na altura. Não me lembro quem esteve à minha frente, quem me encaminhou para a cela, quem mais me ameaçou.

Na cela, quase vazia, havia um preso que imediatamente se interessou pelo meu pulôver e iniciou uma negociação para ficar com ele (ele me pareceu drogado naquele momento, talvez apresentasse um problema psiquiátrico, talvez já estivesse lesado com a prisão, com a tortura). Não me lembro de mais ninguém, não sei se os infelizes daquela tarde também estavam ali comigo. E, claro, fiquei sem aquela parte da roupa. Naquela idade eu ainda não havia me desenvolvido a contento, era menor (e mais jovem) que todos… e tudo parecia maior, mais forte, mais longe.

O preso, a cela, as janelas da cela, tudo tinha um ar fantástico ou fantasmágorico. As janelas gradeadas ficavam um pouco acima mas não eram altas, dava para olhar lá fora. Eu ousei olhar rapidamente e descobri que aquela cela ficava mais abaixo do solo, ficava no subsolo. Vi lá fora um ou mais cachorros soltos. Desta vez cachorros mesmo, canis lupus pastores alemães. Tive a ideia de que eles ficavam rodeando o prédio e prontos para avançar sobre qualquer um que tentasse escapar.

Não sei quanto tempo fiquei ali. Em seguida fui encaminhado juntamente com meu colega ao delegado, ou meu colega já estava com o delegado quando cheguei à sala.

Guardo o nome do desgraçado maior até hoje mas não vale a pena repeti-lo aqui. Era judeu (tomara esteja no inferno dantesco).

Fomos liberados mas meu colega continuou sentado, conversando, parecendo feliz. Minha impaciência me causava enorme mal-estar mas eu não ousava mostrá-la. Queria sumir o quanto antes daquelas paredes e ver a rua, ter o vento de volta ao meu rosto e caminhar para cima ou para baixo da avenida, para onde eu escolhesse.

Disse no início do relato que ele era amigo, mas não na verdade. Era mais velho e mais acostumado à delinqüência, pude concluir depois. Ao longo da minha trajetória de jovem-rebelde-sem-causa acontecia de me aproximar de delinqüentes ou quase delinqüentes numa clara atitude de enfrentamento a autoridades mais ou menos constituídas. Achava que devia mostrar coragem para desafiar o que estava posto, mesmo sem saber bem o que estava posto. Mesmo sem saber nada de como ou quando desafiar. Este colega foi mais uma dessas procuras. Não o conhecia, não havia saído com ele antes (nem depois, claro) e o descobri na sala de aula naquela tarde mesmo e somente para fumar um baseado. No futuro viria a ler sobre enfrentar autoridade, não se sentir bem frente a imposições (justificadas ou não) que autoridades sustentam, viria a saber que tudo isso se referia a enfrentar uma autoridade em especial: meu pai (e minha mãe). Meu pai, coitado, tão debilitado hoje, era então o alvo das minhas tortuosas e equivocadas caminhadas. Isso aparece colocado em Romances Familiares, de Freud.

Acho que devo fazer uma correção: talvez o policial ao qual fomos levados não seja o delegado judeu. Enquanto meu colega ficou à vontade conversando com o meganha, chegou nova ordem: fazer uma ficha policial (esta me lembro bem: acusado de “suspeita de uso de tóxicos”, mesmo sem qualquer prova!). E voltamos para a cela, ou voltei arrasado para a cela. Nada fazia sentido.

 

“Escoltado”

 

Essa passagem tão infeliz da minha vida, vítima de uma ditadura policial, mais que política, embora conseqüência desta, termina na minha casa, após umas vinte e quatro horas em poder dos cães da lei (me perdoem os animais canídeos, o sentido que uso quer mostrar meu ódio aos pusilânimes que se agigantam quando em grupo e armados, quando se tornam covardes exemplares). O que se passou desde minha volta para a cela até entrar de novo na viatura a caminho de casa, não aparece no porão destas lembranças. Posso intuir que não comi nada, do contrário seria lembrado, não senti tampouco fome, o que também me faria lembrar e não devo ter me relacionado com ninguém. Nem aparece agora a imagem do desajustado (ou torturado comum) que estava na cela, no início da minha prisão. Teria eu voltado para a mesma cela ou para outra? Não sei agora. Completamente sem rostos são todos os personagens citados, exceto o delegado, cuja foto com legenda achada mais tarde, algures, me diz que é ele. Seu nome, sussurrado, temido e odiado por anos é inolvidável não só para mim, mas para toda uma geração. Que esteja ardendo no inferno, mais uma vez. Vivo ou morto.

Fui levado para casa escoltado pelos próprios policiais (seriam os mesmos?), na viatura e desta vez no banco da frente (no caminho eu era interrogado, era ameaçado, era levado a reconhecer que era um criminoso e portanto devia ser castigado. Disso me lembro. E eu, completamente indefeso e tomado de medo de que pudessem novamente mudar de ideia, negava sem convicção, com cuidado para não ferir susceptibilidades. Claramente, suponho agora, os perversos estavam insatisfeitos com o desfecho do meu caso).

Minha mãe atende a porta e eu ao lado daqueles pálidos arremedos de policiais (eu ainda era um prisioneiro? Já tinha permissão para entrar na minha casa?) – não me lembro do meu pai na chegada. Eles dizem qualquer coisa cujo conteúdo tenta envolver minha mãe no meu “crime”, culpando-a também (coisas tipo não ser zelosa, não cuidar da minha criação, não “vigiar e punir”). Estava toda minha família ali, ao mesmo tempo aliviada mas também zangada comigo. Os olhares silenciosos denunciavam o misto de sentimentos. Eu havia sido procurado na escola, na vizinhança, pronto-socorro, tudo em vão. (Como fica uma família quando some um membro sem qualquer notícia, como ficam seus parentes sem qualquer apoio e no meio de uma ditadura que decide quem vai ser ou não torturado, assassinado, sumido?)

 

Não fui torturado fisicamente, não havia qualquer suspeita de subversão política nem era esse meu caso. Os danos, que me acompanharam por certo tempo, foram psicológicos. Mas…existe ainda uma sombra me perscrutando, pairando acima e ao lado. Tentando relatar agora, vejo que algo está no escuro. As recordações vêm abaladas, os fatos e os personagens estão esmaecidos, enfumaçados, embaçados. Minhas recordações trazem boatos, verdades e mentiras. São fantasmas que parecem rir de mim mas ao mesmo tempo são meus amigos, são parte de mim, sou eu. São fantasmas que também entram no caldeirão das coisas que me fazem ser o que “consigo fazer com o que fizeram de mim”. É minha história.

b.

a desgraça da indústria da mídia

Não há como não trazer o vídeo abaixo para nosso “deleite”. Temos a impressão de que quanto mais for visto, comentado, discutido, mais as pessoas se darão conta do que as oprime… bom, se acham/sentem que são oprimidas, claro.

De nossa parte, achamos que a autonomia, que inclui também pensar segundo uma liberdade procurada (seja lá o que for isso) não pode ser negociada: qualquer lembrança de Sartre é porque esse lutador também ajudou-nos a nos forjar…

Negociar nunca, em nenhuma hipótese, sob pena de se perder a própria liberdade.

Noam Chomsky, velho guerreiro anarquista contra a imposição dos “mass media” ou o “consenso fabricado”:

vídeo The Al Jazeera English, com legendas.

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Canção Amiga

Drummond

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

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Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

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