uma empresa que sempre quis parecer simpática ao público.

(um dia vamos falar também da gigante Unilever.)

origem do texto: jornalggn.com.br, de luis nassif.

Nestlé e o fim da Era Brabeck

publicação original em   http://www.thedawn-news.org/2017/05/04/nestle-and-the-end-of-the-brabeck-era/por Franklin Frederick 

O século XX tem sido caracterizado por três desenvolvimentos de grande importância política: o crescimento da democracia, o crescimento do poder corporativo e o crescimento da propaganda corporativa como um meio de proteger o poder corporativo contra a democracia”. (Alex Carey)

Na quinta-feira, 06 de abril, Peter Brabeck-Letmathe, 72 anos, participou pela última vez da Assembleia Geral da Nestlé como Presidente do Conselho de Administração. Ele trabalhou 50 anos para a Nestlé, 20 anos como Presidente do Conselho. Ninguém pode negar que ele é um homem muito inteligente e um brilhante estrategista, sempre pronto a defender suas ideias em público. Ele tem aparecido com tanta frequência em filmes e na mídia em geral que se tornou um tipo de celebridade dentre os diretores executivos. Ele e seu compatriota Arnold Schwarzenegger, com quem compartilha muito em comum, são provavelmente os mais conhecidos austríacos contemporâneos no mundo. Suas opiniões sobre Economia e Política parecem vir como um direito de nascimento natural diretamente da Escola Austríaca de Economia que surgiu em Viena no final do século XIX, como “uma reação contra as reformas socialistas. Opondo-se aos regulamentos públicos e à propriedade, a Escola Austríaca criou um universo paralelo no qual os governos não aparecem senão como uma carga (…)”  de acordo com o economista Michael Hudson.(1).

Em suas respectivas capacidades – Peter Brabeck como diretor executivo da Nestlé e também como membro do Conselho de Administração  de várias outras companhias; Arnold Schwarzenegger como Governador da Califórnia – eles fizeram todo o possível para proteger o mundo contra o mal do Estado de Bem-Estar Social, defender as empresas privadas das regulamentações governamentais e caçar o Bem Comum onde quer que pudessem encontrá-lo, pregando o Evangelho da Privatização como a salvação da economia, ou mesmo da civilização em si. No entanto, foi Peter Brabeck e não Arnold Schwarzenegger quem conseguiu uma influência mais profunda e duradoura sobre a economia e a sociedade em geral. Portanto, é importante ter um olhar mais atento sobre o seu legado.

Uma das principais realizações do Peter Brabeck é a criação do Water Resources Group (WRG), uma mistura de “think tank” com um grupo de lobby e uma agência de desenvolvimento promovendo parcerias público-privadas no setor de água. Ele é Presidente do WRG e não há indicação até agora de que vá se aposentar também desta posição. O WRG foi fundado pela Nestlé, Coca-Cola, PepsiCo e SAB Miller, os gigantes do setor de água engarrafada. O WRG tem outros membros poderosos e influentes não diretamente ligados ao setor da água engarrafada, como por exemplo,o International Finance Corporation (IFC), membro do Banco Mundial que atua como conselheiro de projetos do setor privado. Philippe Le Houérou, diretor executivo da IFC, é também vice-presidente do WRG. A Agência Suíça para Desenvolvimento e Cooperação (SDC) é também membro do WRG. O diretor da SDC – Manuel Sager – pertence ao Conselho Diretor do WRG, assim como os diretores executivos da Coca-Cola e da  PepsiCo.

O WRG fornece a plataforma institucional perfeita para que Peter Brabeck prossiga sua política de privatização da água em níveis muito altos. As companhias de engarrafamento de água, incluindo a Nestlé, têm naturalmente muito a lucrar tanto com a privatização da água como com o desmantelamento dos serviços públicos de água. O poder econômico e político do WRG pode ser usado para influenciar governos no mundo todo. Há uma conexão importante no WRG que muitas vezes é esquecida: em 2015 a cervejaria gigante AB Inbev adquiriu a SAB Miller que é membro do WRG. AB Inbev pertence ao Império do Suíço-Brasileiro Jorge Paulo Lemann, estimado pela revista FORBES como o homem mais rico no Brasil e o segundo mais rico na Suíça. O império econômico de Lemann tem um profundo alcance dentro  dos Estados Unidos e da América Latina.

Outra realização importante de Peter Brabeck é a estreita relação de trabalho que ele estabeleceu entre a Nestlé e os militares. Nos anos 70 e 80 do século passado, a Nestlé enfrentou uma enorme ameaça à sua imagem e práticas pela campanha “Nestlé mata bebês”, organizada por diversos grupos da sociedade civil na Europa e nos EUA. Para lidar com esse desafio, a Nestlé contratou o oficial de inteligência do Exército dos EUA, Raphael Pagan, que era responsável pelo desenvolvimento das estratégias para “lutar” contra as críticas da sociedade civil. Isso aconteceu antes de Brabeck tornar-se diretor executivo, mas a experiência parece ter sido muito bem-sucedida, uma vez que Brabeck levou-a a novos níveis. Como diretor executivo da Nestlé, Brabeck contratou John Hedley, um ex-agente do MI6, como chefe de segurança da Nestlé. E foi John Hedley quem organizou uma operação para infiltrar espiões em grupos da sociedade civil suíça que criticam a Nestlé, especialmente o grupo ATTAC. Em 2011 a Nestlé organizou o fórum internacional “Creating Shared Values” em parceria com o “Atlantic Council”, uma grande organizaçã de grande empresas privadas em torno da OTAN. A Nestlé norte-americana possui um programa de trabalho especial para ex-militares. Seu website diz:

“A Nestlé orgulha-se de oferecer inúmeras oportunidades aos veteranos do exército dos Estados Unidos, ajudando-os a usar sua formação e habilidades únicas dentro das várias empresas operacionais de nossa organização” (2).

A estreita cooperação entre empresas transnacionais e a inteligência militar, ou o Exército em geral, não é exclusiva da Nestlé, mas Peter Brabeck esteve à frente da maioria das outras corporações transnacionais (TNCs) em seu engajamento por ela. A razão para tal cooperação é muito simples: as transnacionais e o setor financeiro são as principais forças motrizes das políticas neoliberais, esta forma de fundamentalismo de mercado de extrema-direita que é profundamente antidemocrática.

Um dos principais instrumentos políticos do projeto neoliberal é a privatização, que significa basicamente transformar o bem comum em lucro privado – algo que, por definição, não vai receber muito apoio popular – portanto, as políticas neoliberais são obrigadas a enfrentar muita resistência popular e só podem ser implementadas por violência ou fraude. A inteligência militar pode fornecer muitas informações sobre como a sociedade civil está se organizando contra a aquisição corporativa, tanto da democracia quanto dos recursos naturais, proporcionando assim ao poder corporativo alguns meios importantes para se proteger. Além disso, a maioria dos recursos naturais fundamentais para as transnacionais está localizada nos países do Sul, onde a cooperação com os militares pode ser muito útil para combater as tentativas dos governos locais e da população de usar seus recursos naturais para seu próprio desenvolvimento, o crime supremo na visão do neoliberalismo. Foi o que aconteceu no Chile quando o governo eleito de Salvador Allende começou a nacionalizar alguns dos recursos naturais do Chile e usá-los para o desenvolvimento do Chile e não para o lucro das multinacionais. O poderoso sistema internacional  reagiu então primeiramente  com  uma guerra econômica e, quando esta não funcionou, com um golpe de Estado sob a liderança do general Augusto Pinochet. O que se seguiu foi uma guerra contra a população chilena que durou muitos anos, resultando em milhares de pessoas mortas ou desaparecidas. Do ponto de vista neoliberal, uma história de sucesso: Pinochet realmente implementou um programa neoliberal. Peter Brabeck teve a oportunidade de ver o que Pinochet estava fazendo de muito perto: ele estava lá. O início de sua carreira na Nestlé foi no Chile exatamente na mesma época. Ele deve ter ficado impressionado com a maneira como Pinochet lidava com a resistência da população contra as políticas de privatização.

No entanto, a violência aberta em nome de políticas impopulares nem sempre é possível e, em seguida, o projeto neoliberal recorre à fraude, tentando esconder os verdadeiros objetivos de suas políticas e convencer a população em geral que está realmente trabalhando para o benefício dela. Assim, as empresas privadas que pressionam pela privatização dos serviços públicos por meio do Acordo de Comércio de Serviços (TISA), por exemplo, chamam-se de “os verdadeiros amigos dos serviços” (3). Da mesma forma, Peter Brabeck chama de “Creating Shared Values” como a Nestlé está “produzindo um impacto positivo a longo prazo para os acionistas e a sociedade”. A água como um bem comum é o nosso mais precioso valor compartilhado e as políticas de privatização de Brabeck são um claro ataque a este.

Acima de tudo, o projeto neoliberal tenta se esconder. “Project censored” – uma iniciativa para expor e se opor à censura de informação (4) – aponta como a estória mais censurada  de 2015: “Metade da riqueza global possuída pelos 1%”. Este ano – 2017 – mais de metade da riqueza global é detida pelos 1%. Na verdade, apenas 8 homens possuem a mesma riqueza que metade da populaçãp  do mundo (5), o que demonstra claramente  quem está realmente se beneficiando das políticas neoliberais e das privatizações. Não por acaso, no mesmo ano de 2015, a 4ª estória mais censurada foi: “A resistência popular à aquisição  da  água pelas empresas” (6).

A privatização e apropriação da água vão de mãos dadas com a acumulação de riqueza pela classe dos 1% a que Peter Brabeck pertence – um fato que ele faz o melhor para esconder.

Ele também conseguiu silenciar a maioria das ONGs suíças politicamente envolvidas, consciente do fato de que a discussão pública e críticas à Nestlé na Suíça – seu país de origem – poderiam ter um impacto muito negativo na imagem da empresa..

A aposentadoria de Peter Brabeck, o fim da era Brabeck, no entanto, coincide com o fim do projeto neoliberal em si, sua credibilidade erodida, seus objetivos reais desvendados.

Em todo o mundo movimentos de resistência estão crescendo e cada vez mais países rejeitam as políticas neoliberais. Aqueles que estavam celebrando o fim da “pink tide” na América Latina, quando partidos  progressistas na Argentina, Bolívia, Paraguai, Brasil, Equador e Venezuela chegaram ao poder político, podem ter que rever o que está acontecendo no continente. No Equador o povo elegeu Lenin Moreno como Presidente, o candidato apoiado por Rafael Correa; na Argentina, as políticas neoliberais do presidente Macri, que aumentaram a pobreza da população em apenas alguns meses depois de sua eleição, enfrentam agora uma enorme resistência do povo e uma greve geral que paralisou todo o país. O que Macri conseguiu na Argentina até agora não pode ser chamado de sucesso e é duvidoso que ele seja reeleito, para consternação da classe neoliberal. No Brasil, onde um golpe de Estado parlamentar era necessário para implementar um programa neoliberal completo e iniciar a privatização dos bens públicos do país, o governo ilegítimo do presidente Michel Temer está caindo aos pedaços. E apesar da grande campanha da imprensa contra o ex-presidente Lula, é ele quem aparece em todas as pesquisas como aquele com mais apoio popular para ganhar uma eleição. E a Venezuela, apesar de uma guerra econômica semelhante à lançada contra o presidente Allende no Chile e de uma campanha da imprensa internacional contra seu governo, mantém orgulhosamente sua política de usar os recursos naturais da Venezuela em benefício de sua própria população, com resultados impressionantes como em seus programas de habitação e alfabetização. No entanto, qualquer resultado concreto e positivo alcançado por políticas alternativas ao credo neoliberal deve ser subestimado ou totalmente ignorado pela imprensa dominante, a aliada mais importante do neoliberalismo. No entanto, os sinais dos tempos são claros e o projeto neoliberal chegou no fim.

O sucessor de Peter Brabeck na Nestlé não será capaz de fazer tanto quanto o próprio Brabeck fez pelo projeto neoliberal. E ele terá que ser muito mais cuidadoso ao lidar com os movimentos críticos da sociedade civil, porque no final, nós, o povo, decidiremos qual lugar ele e a Nestlé podem ter no futuro.

Tradução

Déborah Braga Resende

José de Arimatéia Dias Valadão

OBS: a seis notas indicadas no texto não se encontram também no original.

WIKIPEDIA: “Pink tide” (Spanish: marea rosa, Portuguese: onda rosa) and “turn to the Left” (Sp.: vuelta hacia la izquierda, Pt.: Guinada à Esquerda) are phrases used in contemporary 21st century political analysis in the media and elsewhere to describe the perception of a turn towards left wing governments in Latin-American democracies straying away from the then more frequent neo-liberal economic model. The shift represented a move toward more progressive economic policies, post-colonialism and direct democracy.

The Latin American countries viewed as part of this ideological trend have been referred to as “Pink Tide nations”, with the term post-neoliberalism being used to describe the movement as well. Recently, analysts have characterized some of these government’s as having anti-American,[ populist, and authoritarian-leaning traits. The movement, which occurred primarily between 1998 and 2009, entered into a state of stagnation and decline shortly thereafter.

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Agora um videozinho…digamos, instigante. Originalmente parece vir do sítio Russia Today. Encontra-se também na rede uma entrevista com o senhor da matéria acima que mostra assustadoramente seus argumentos rasos, fáceis, repetidos acerca de sua posição do porquê privatizar não só a água, senão tudo que é vendável, depreende-se. Acontece que tudo se torna vendável no capitalismo: não por acaso os sempre pioneiros norteamericanos vêm patenteando sementes de maconha, antecipando o grande comércio da planta que já anda com as próprias pernas, agora sem a polícia no encalço (nalguns países menos do que em outros). Ele é tão raso no raciocínio que diz que a empresa para a qual trabalha, a Nestlé, claro, tem que ter futuro para os seus tantos empregados. Uau, é de um achado nunca ouvido alhures. Mais: as empresas têm que resolver os problemas… que elas mesmas criam! Tautologia. Com tanto poder e com tantas platitudes. Bom, talvez sejamos extremistas por pensar que as empresas não deveriam provocar problemas… Melhor ir ao vídeo:

Quanto ao BOICOTE aos produtos dessa gigante, achamos que nem precisamos sugerir, considerando que trata-se de uma questão de consciência (individual), embora seja também uma questão POLÍTICA (social). É caso de se pensar: será que preciso mesmo deste ou daquele produto que eu vejo nas gôndolas dos mercados?O que essa empresa vem fazendo com o circuito das águas mineiras, através de compras de prefeitos imunes e sempre medíocres (espelhos de uma sociedade idem), é assunto para outra oportunidade.

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não há limite para o desprezo

em mais ou menos cinquenta anos no uso da “matéria plástica”, está tudo tomado. encontram-se na net documentários mostrando a presença do plástico no estômago de peixes e outros animais que vivem longe de qualquer humano. “onde foi que errei”, deve estar se perguntando o criador do homo sapiens (sapiens?).

é que somos precisamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos confundir com os outros, estamos eternamente condenados a esta lei: ‘não há ninguém que não seja estranho a si mesmo’; nem a respeito de nós mesmos somos ‘homens de conhecimento’” Friedrich Nietszche

abaixo, artigo do El País.

Uma ilha desabitada do Pacífico Sul é o lugar com a maior densidade de lixo no mundo. O território de Henderson acumula 18 toneladas de resíduos em seus 37 quilômetros quadrados, ou seja, 671 pedaços de lixo por metro quadrado, de acordo com um estudo publicado na segunda-feira pela revista científica norte-americana PNAS. A cada dia chegam 3.570 resíduos flutuando, embora o território fique a 5.000 quilômetros de distância da massa continental mais próxima, acrescenta o artigo. 

A Ilha Henderson faz parte do arquipélago britânico de Pitcairn e lá são realizados estudos científicos a cada cinco ou dez anos. Está localizada perto do chamado Giro do Pacífico Sul, um redemoinho gigante onde se acumulam detritos transportados pelas correntes marinhas provenientes de navios ou da América do Sul.

jennifer lavers (AP)

(foto, jennifer lavers (AP))

Os cientistas estimam que existam cerca de 38 milhões de pedaços de plástico na Ilha Henderson, cujo tamanho é semelhante ao da cidade espanhola de Corunha. No entanto, a quantidade de lixo pode ser ainda maior, como explicou a principal autora do estudo, Jennifer Lavers, do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos da Universidade da Tasmânia. A equipe de cientistas só explorou até uma profundidade de dez centímetros de areia, nas áreas de falésias o acesso foi menor, e muitos pedaços de plástico eram pequenos demais para serem contados.

Recipientes de plástico, boias de pesca, redes, escovas de dente e isqueiros são parte dos resíduos que cobrem a ilha. Embora a maioria seja de “objetos não identificados”, como os milhares de pedaços medindo apenas um milímetro, disse Lavers à agência Efe.

“O que vemos na Ilha Henderson demonstra que nenhum lugar do mundo escapa da poluição pelo plástico, nem mesmo os mais remotos nos oceanos”, disse Lavers. 

A especialista alertou que 25% das espécies marinhas e algumas aves comem plástico em algum momento. “E se alguém comer um peixe com tecidos contaminados na verdade está comendo seu próprio lixo”, insistiu.

foto jennifer lavers (AP), em 2015

(foto, idem)

Os cientistas estimam que, enquanto na década de cinquenta a produção de plástico era inferior a dois milhões de toneladas, em 2014 ultrapassou os 300 milhões de toneladas em todo o mundo. O plástico que não é reciclado e termina no mar, onde flutua durante anos, representa uma ameaça para os animais que o ingerem ou se enredam no lixo, explica o estudo.

 

 

 

 

 

a caminho do Espírito Santo

 

A caminho do pedaço mais delicioso da nossa vida. Um desejo que é uma ordem.

Desejo é um delito? Seremos condenados? Truísmo, já que o Tempo se encarrega de nos condenar ao nos prender a ele. É pouco? Abra-se o processo, seja nos tribunais, na igreja, ou nos consultórios. Does not matter, porque caminhamos (sorridentes) para o fim, mas… que nos encontremos antes com Alexandre Instrumental, com a instigante Rute-Barra-do-Jucu/Breno, imprevisível. E, claro, libidinalmente claríssimo: que nos encontremos também (pela ordem de aparição!) com a nossa doce Rosana, a irascível Iolanda, a impulsiva Márcia. “Já confundimos tanto as nossas pernas”… Passemos naquele ponto onde nos esperam interinstitucionalmente os Entropistas: Evandro PT, Fabrício Coyoticonoclasta, Jean Filólogo Jean, Eleíze…e outros. Que bebamos nossa cerveja, como sempre fizemos, impunemente. “Não importa quantas taças de vinho proibido nós bebamos, carregaremos essa sede violenta até a eternidade”. Que os incensos nos envolvam. Que continuemos amando a revolução (sempre) adiada e que briguemos por nada para que façamos as pazes do nada, afinal, somos mesmo um nada sempiterno…

Assim, e semoventes, procuraremos nos preencher de memórias embriagadas: então seremos tudo o que ousarmos criar.

Somos todos cúmplices.

Desejo é um delito?

Que sejamos julgados e condenados, iremos sorridentes para o fim.

Não haverá verdugo porque ninguém vai nos tirar (d)o que é nosso: a felicidade consciente (ou quase) em fazer da vida (“Ter sido, estar sendo”) o melhor lugar do mundo, no Espírito Santo, Amém.

(músicas: o capixa maldito Sérgio Sampaio e Adileia Silva, aliás, Dolores Duran, dois seres que se afogavam no absinto fada-verde abissal…)

 

sampa antiga

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Vintage Humorous Photos (32)

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por que é mentira que “There Is No Alternative”?

porque todo poder emana do povo, simples assim.

 

Sobre Greves

por Flávio Aguiar in Revista do Brasil

A primeira greve brasileira ocorreu no início de 1858, no Rio de Janeiro. Foi a greve dos tipógrafos da então Corte, depois capital federal e hoje capital do estado com o mesmo nome.

tipógrafos grevistas Arquivo Nacional

O Rio de Janeiro passava por problemas de carestia ou falta de gêneros alimentícios, e aumento de seus preços, bem como dos aluguéis. Havia, portanto, um processo inflacionário.

Os tipógrafos eram trabalhadores letrados, que tinham acesso a informações sobre o que se passava no resto do mundo, isto é, naqueles tempos e para eles, a Europa e os Estados Unidos. A classe ergueu-se no movimento paredista (como também se dizia então), reivindicando o aumento da féria (também como se dizia) em 1 mil-réis por dia. Resultado: praticamente paralisaram ou pelo menos prejudicaram seriamente a publicação dos jornais, ou “folhas diárias”. De 7 a 11 de janeiro estas folhas, que normalmente tinham quatro páginas de tamanho standard, saíram só com duas ou nem saíram. Algumas vezes aglomeraram duas edições numa só, como no caso do “Diário do Rio de Janeiro”, que juntou dois dias numa única publicação: 9 e 10 de janeiro.

Perplexos, os donos, acionistas e redatores-chefe dos jornais, reagiram com grande violência retórica, pedindo a repressão do movimento e a intervenção policial, “para destruir em nascença um mal que pode tomar grandes proporções”, conforme editorial conjunto publicado naquele jornal e também na “Gazeta Mercantil” e no “Jornal do Comércio”. Desconfio seriamente, pelo estilo do texto, que seu autor ou pelo menos revisor foi nada mais nada menos que José de Alencar, que era então o redator-chefe do “Diário”.

a plebe

O então ministro da Fazenda, o paraense e visconde Bernardo de Sousa Franco, mandou que os “compositores” da Tipografia Nacional, a ele subordinada, fossem furar a greve, substituindo os tipógrafos dos jornais. Entretanto, os trabalhadores da Tipografia Nacional reuniram-se em assembleia e se solidarizaram com seus colegas, o que levantou mais a ira dos patrões e seus aliados.

Dizia o mesmo editorial: “Eles (os tipógrafos da T. N.) quiseram fazer causa comum com os seus companheiros; o que bem mostra a aliciação que tem havido, e a espécie de sugestão que exercem alguns mais exaltados sobre outros de ânimo tímido e irresoluto”. E concluíam pedindo a referida intervenção da polícia, embora não dissessem o que ela deveria fazer. Embora possamos imaginar o que eles pensavam que ela deveria fazer.

abanti

Nesta época, Machado de Assis, então com 18 anos, trabalhava na Imprensa Nacional, e sabe-se que alimentava ideias então tidas como “exaltadas”. Não resisti à tentação, e no meu romance “Anita”, coloquei-o na posição de discursar para aquela assembleia dos tipógrafos oficiais: “Houve debates acalorados. O Machadinho (como o grande escritor era conhecido na juventude), que nessa época era aprendiz de tipógrafo e tinha ideias esquentadas, foi. Fez um discurso inflamado. Terminou gritando: ‘’tipógrafos da Corte, uni-vos, nada tendes a perder…’ Não conseguiu terminar a frase, tal a massa de aplausos”.

Os donos de jornais estavam muito assustados. Dias antes houvera uma tentativa de movimento semelhante por parte dos acendedores de lampião nas ruas da cidade. Já os tipógrafos, comportando-se como membros de uma “aristocracia operária”, recusaram a comparação do seu movimento com o deles. Sabe-se disto através de detalhe curioso e importante.

Em consequência do movimento, os donos dos jornais demitiram os tipógrafos grevistas. Alguns deles reuniram-se numa espécie de cooperativa e passaram a publicar a sua própria folha diária, o Jornal dos Tipógrafos, que durou cerca de três meses.

manifestantes na ruaEm editorial anunciavam: “O artista (como se chamavam) hoje encontrou na arte (no ofício e na corporação) a sua verdadeira pátria (…), sua família é a classe, sua vida a força poderosa de seus indisputáveis recursos”.

Este jornal se encontra hoje na seção de livros raros da Biblioteca Nacional, e também já deve estar digitalizado. Tive a ventura de consulta-lo diretamente nas suas folhas, enquanto fazia minha pesquisa de doutorado sobre o teatro e, paralelamente, o jornalismo de Alencar.

Devido ao silêncio subsequente das demais “folhas diárias” sobre os desdobramentos da “parede”, não sabemos se os tipógrafos conseguiram seus mil-réis a mais na féria do dia. O certo é que eles fundaram o primeiro jornal alternativo do Brasil, com este espírito explicitamente marcado.

/////////////////////////////breve e resumido histórico recente/////////////////////////

* 1968: 25 mil metalúrgicos de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), e Osasco, na Grande São Paulo (SP), organizaram grandes greves de resistência à ditadura militar por aumento salarial e melhores condições de trabalho.

* 1978: dois mil metalúrgicos da Saab Scania de São Bernardo do Campo (SP) cruzaram os braços reivindicando aumento salarial. Operários da Volkswagen, Ford e Mercedes Benz seguiram seus pares e o movimento tomou proporções muito maiores.

* 1979: nova onde de greves acontece no país envolvendo agora metalúrgicos, professores, bancários, jornalistas, servidores públicos e da construção civil. Em Belo Horizonte, a Rua Espírito Santo, via que concentrava várias instituições bancárias, amanheceu tomada por policiais. Operários da construção fizeram uma assembleia no antigo campo do Clube Atlético Mineiro (hoje um shopping center) e saíram de lá rumo ao centro degradado da cidade, o tal “Baixo Belô”, depredando tudo que encontravam pela frente. Fomos testemunhas do rastro de destruição deixado no caminho por onde passaram. E foi algo… satisfatório ver aquilo.

* 1980: de novo em São Bernardo do Campo nova greve, que dura 41 dias e envolve mais de 300 mil metalúrgicos. Nasce o Novo Sindicalismo no país e um líder aparece: Luis Inácio da Silva, o Lula.

Claro que a lista não é exaustiva. Muitos movimentos paredistas aconteceram pelo Brasil. Fica nossa homenagem aos líderes anônimos que ajudaram a reconstruir o país e que contribuiram de alguma forma a escrever a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

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Já na BBC Brasil:

tomada geral fabrica

Em junho de 1917, décadas antes da consolidação das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 operários – em sua maioria mulheres – da fábrica têxtil Cotonifício Crespi na Mooca, em São Paulo, paralisaram suas atividades.

Eles pediam, entre outras coisas, aumento de salários e redução das jornadas de trabalho, que até então não eram garantidos por lei. Em algumas semanas, a greve se espalharia por diversos setores da economia, por todo o Estado de São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira “greve geral” no país.

Historiador Claudio Batalha, da Unicamp: “Não é uma greve que já tivesse bandeiras gerais. Ela começa com questões específicas dos setores que vão aderindo ao movimento grevista, alguns por solidariedade. Depois é que a pauta passou a incluir desde reivindicações relacionadas ao trabalho até reivindicações de cunho político – libertação dos presos do movimento, por exemplo.”

Uma destas questões específicas, menos comentada nos livros de história, era o assédio sexual. Segundo Batalha, parte da revolta das funcionárias do Cotonifício Crespi era o assédio que sofriam dos chamados contramestres, funcionários que supervisionavam o chão de fábrica.

“Isso não era incomum na época. Greves anteriores já haviam começado contra determinado funcionário que tivesse um cargo de chefia e tirasse proveito desse poder”, explica.

Em 1917, a indústria brasileira ia de vento em popa.

Na verdade, os lucros das empresas chegavam a duplicar a cada ano.

“Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, se passou de uma recessão econômica a um superemprego, porque os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados”, explica o historiador italiano radicado no Brasil Luigi Biondi, da Unifesp.

“Em 1914, o Cotonifício Crespi lucrou 196 contos de réis. No ano seguinte, o lucro foi de 350 contos de réis. E foi aumentando. Enquanto isso, aumentavam as horas de trabalho.”

Com o aumento da produção, as fábricas brasileiras, que tinham poucas máquinas, vindas do exterior, tiveram que usá-las por mais tempo. Isso significava que os operários passaram a trabalhar até 16 horas por dia, sem aumento de salário.

No final de junho, a paralisação dos operários do Crespi contagiou os 1.500 operários da fábrica têxtil Ipiranga. Em seguida, se espalhou pela indústria de móveis, concentrada no Brás, e chegou até a fábrica de bebidas da Antarctica.

“Em julho, a greve parou a cidade (São Paulo). Havia embates de rua e tentativa de saques aos moinhos que produziam farinha por causa da crise de abastecimento. Muitos foram mortos e feridos nos confrontos com a polícia”, diz Biondi.

O movimento ganhou mais fôlego no dia 11 de julho, quando milhares acompanharam o enterro do sapateiro espanhol José Martinez, de 21 anos.

Ele morreu com um tiro no estômago depois que uma unidade de cavalaria da polícia dispersou manifestantes que quebraram barris de cerveja diante da fábrica da Antartica, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, que noticiou o confronto.

“A partir daí, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de São Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeirão Preto. Até Poços de Caldas, no sul de Minas, que não era uma cidade industrial, teve movimentos de greve”, afirma o historiador.

Em 16 de julho – mais de um mês após o início da paralisação no Cotonifício Crespi – um acordo entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais, mediado por jornalistas, pôs fim à greve em São Paulo. Mais ainda não era o fim da greve geral.

“Só em São Paulo a greve de fato terminou com uma negociação única. No Rio e em Porto Alegre, os movimentos tiveram dimensões gerais, mas só terminaram na medida em que cada setor chegava a um acordo com seu patronato. O ritmo de saída da greve foi aos poucos, assim como a adesão”, explica Batalha.

Segundo Biondi, até mesmo na cidade de São Paulo ainda havia categorias entrando em greve no dia 18 de julho, como os pedreiros. Parte dos empresários se recusava a assinar os acordos e queria negociar condições diretamente com os funcionários.

Mesmo com a assinatura dos acordos, a consolidação dos direitos só viria em 1943, durante o regime de Getúlio Vargas.

“O que acontecia muitas vezes na época é que algo era obtido com uma greve, passava-se algum tempo e essa reivindicação voltava para nada”, diz Claudio Batalha.

“Em 1907, também houve uma série de greves pedindo a jornada de trabalho de oito horas. E elas chegaram a diminuir, mas, depois de algum tempo, o patronato voltou a estabelecer as jornadas anteriores. O mesmo ocorreu após 1917.”

A experiência da primeira greve geral também fez com que os empresários se preparassem para enfrentar futuras paralisações – o que tornou novas negociações mais difíceis para os trabalhadores.

“Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917 é que as fábricas não tinham estoques. Quando os operários paravam, não havia produtos nas lojas. A partir daí, eles passaram a ter grandes estoques, e podiam permanecer sem funcionar um certo período porque tinham produção para vender.”

Batalha lembra, no entanto, que o acordo só surgiu depois que “a greve atingiu dimensões tais que não tinha mais como controlar o movimento”.

“A primeira tentativa de lidar com a greve foi de repressão. Essa era a tônica do período, tanto que houve mortes. Parte do processo de ampliação da greve, inclusive, se deveu a essas mortes.”

Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na indústria têxtil deram início a protestos e a uma paralisação que teria consequências ainda maiores: a revolução russa.

“Essa greve também é importante porque mostra a conexão do Brasil com o resto do mundo. Naquele ano, greves como aquela ocorreram em diversos países”, diz Luigi Biondi.

Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a São Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organização do movimento.

“Por causa da Rússia, eles tinham a ideia de que aquilo poderia levar a uma insurreição dos trabalhadores. Isso não ocorreu, mas a cidade foi tomada. Pela primeira vez isso espantou as elites do país, que começaram a se dar conta de que a questão social urbana era grave e tinha que ser considerada.”

Batalha acha que as correntes socialistas “tinham certa liderança”, mas que sua influência era maior sobre trabalhadores qualificados.

“O que faz com que uma greve funcione é que as pessoas sintam que aquele estado de coisas chegou ao limite. Uma das características importantes de 1917 é que, pela primeira vez, setores que não participavam desse tipo de movimento começaram a participar.”