por que é mentira que “There Is No Alternative”?

porque todo poder emana do povo, simples assim.

 

Sobre Greves

por Flávio Aguiar in Revista do Brasil

A primeira greve brasileira ocorreu no início de 1858, no Rio de Janeiro. Foi a greve dos tipógrafos da então Corte, depois capital federal e hoje capital do estado com o mesmo nome.

tipógrafos grevistas Arquivo Nacional

O Rio de Janeiro passava por problemas de carestia ou falta de gêneros alimentícios, e aumento de seus preços, bem como dos aluguéis. Havia, portanto, um processo inflacionário.

Os tipógrafos eram trabalhadores letrados, que tinham acesso a informações sobre o que se passava no resto do mundo, isto é, naqueles tempos e para eles, a Europa e os Estados Unidos. A classe ergueu-se no movimento paredista (como também se dizia então), reivindicando o aumento da féria (também como se dizia) em 1 mil-réis por dia. Resultado: praticamente paralisaram ou pelo menos prejudicaram seriamente a publicação dos jornais, ou “folhas diárias”. De 7 a 11 de janeiro estas folhas, que normalmente tinham quatro páginas de tamanho standard, saíram só com duas ou nem saíram. Algumas vezes aglomeraram duas edições numa só, como no caso do “Diário do Rio de Janeiro”, que juntou dois dias numa única publicação: 9 e 10 de janeiro.

Perplexos, os donos, acionistas e redatores-chefe dos jornais, reagiram com grande violência retórica, pedindo a repressão do movimento e a intervenção policial, “para destruir em nascença um mal que pode tomar grandes proporções”, conforme editorial conjunto publicado naquele jornal e também na “Gazeta Mercantil” e no “Jornal do Comércio”. Desconfio seriamente, pelo estilo do texto, que seu autor ou pelo menos revisor foi nada mais nada menos que José de Alencar, que era então o redator-chefe do “Diário”.

a plebe

O então ministro da Fazenda, o paraense e visconde Bernardo de Sousa Franco, mandou que os “compositores” da Tipografia Nacional, a ele subordinada, fossem furar a greve, substituindo os tipógrafos dos jornais. Entretanto, os trabalhadores da Tipografia Nacional reuniram-se em assembleia e se solidarizaram com seus colegas, o que levantou mais a ira dos patrões e seus aliados.

Dizia o mesmo editorial: “Eles (os tipógrafos da T. N.) quiseram fazer causa comum com os seus companheiros; o que bem mostra a aliciação que tem havido, e a espécie de sugestão que exercem alguns mais exaltados sobre outros de ânimo tímido e irresoluto”. E concluíam pedindo a referida intervenção da polícia, embora não dissessem o que ela deveria fazer. Embora possamos imaginar o que eles pensavam que ela deveria fazer.

abanti

Nesta época, Machado de Assis, então com 18 anos, trabalhava na Imprensa Nacional, e sabe-se que alimentava ideias então tidas como “exaltadas”. Não resisti à tentação, e no meu romance “Anita”, coloquei-o na posição de discursar para aquela assembleia dos tipógrafos oficiais: “Houve debates acalorados. O Machadinho (como o grande escritor era conhecido na juventude), que nessa época era aprendiz de tipógrafo e tinha ideias esquentadas, foi. Fez um discurso inflamado. Terminou gritando: ‘’tipógrafos da Corte, uni-vos, nada tendes a perder…’ Não conseguiu terminar a frase, tal a massa de aplausos”.

Os donos de jornais estavam muito assustados. Dias antes houvera uma tentativa de movimento semelhante por parte dos acendedores de lampião nas ruas da cidade. Já os tipógrafos, comportando-se como membros de uma “aristocracia operária”, recusaram a comparação do seu movimento com o deles. Sabe-se disto através de detalhe curioso e importante.

Em consequência do movimento, os donos dos jornais demitiram os tipógrafos grevistas. Alguns deles reuniram-se numa espécie de cooperativa e passaram a publicar a sua própria folha diária, o Jornal dos Tipógrafos, que durou cerca de três meses.

manifestantes na ruaEm editorial anunciavam: “O artista (como se chamavam) hoje encontrou na arte (no ofício e na corporação) a sua verdadeira pátria (…), sua família é a classe, sua vida a força poderosa de seus indisputáveis recursos”.

Este jornal se encontra hoje na seção de livros raros da Biblioteca Nacional, e também já deve estar digitalizado. Tive a ventura de consulta-lo diretamente nas suas folhas, enquanto fazia minha pesquisa de doutorado sobre o teatro e, paralelamente, o jornalismo de Alencar.

Devido ao silêncio subsequente das demais “folhas diárias” sobre os desdobramentos da “parede”, não sabemos se os tipógrafos conseguiram seus mil-réis a mais na féria do dia. O certo é que eles fundaram o primeiro jornal alternativo do Brasil, com este espírito explicitamente marcado.

/////////////////////////////breve e resumido histórico recente/////////////////////////

* 1968: 25 mil metalúrgicos de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), e Osasco, na Grande São Paulo (SP), organizaram grandes greves de resistência à ditadura militar por aumento salarial e melhores condições de trabalho.

* 1978: dois mil metalúrgicos da Saab Scania de São Bernardo do Campo (SP) cruzaram os braços reivindicando aumento salarial. Operários da Volkswagen, Ford e Mercedes Benz seguiram seus pares e o movimento tomou proporções muito maiores.

* 1979: nova onde de greves acontece no país envolvendo agora metalúrgicos, professores, bancários, jornalistas, servidores públicos e da construção civil. Em Belo Horizonte, a Rua Espírito Santo, via que concentrava várias instituições bancárias, amanheceu tomada por policiais. Operários da construção fizeram uma assembleia no antigo campo do Clube Atlético Mineiro (hoje um shopping center) e saíram de lá rumo ao centro degradado da cidade, o tal “Baixo Belô”, depredando tudo que encontravam pela frente. Fomos testemunhas do rastro de destruição deixado no caminho por onde passaram. E foi algo… satisfatório ver aquilo.

* 1980: de novo em São Bernardo do Campo nova greve, que dura 41 dias e envolve mais de 300 mil metalúrgicos. Nasce o Novo Sindicalismo no país e um líder aparece: Luis Inácio da Silva, o Lula.

Claro que a lista não é exaustiva. Muitos movimentos paredistas aconteceram pelo Brasil. Fica nossa homenagem aos líderes anônimos que ajudaram a reconstruir o país e que contribuiram de alguma forma a escrever a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

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Já na BBC Brasil:

tomada geral fabrica

Em junho de 1917, décadas antes da consolidação das leis trabalhistas no Brasil, cerca de 400 operários – em sua maioria mulheres – da fábrica têxtil Cotonifício Crespi na Mooca, em São Paulo, paralisaram suas atividades.

Eles pediam, entre outras coisas, aumento de salários e redução das jornadas de trabalho, que até então não eram garantidos por lei. Em algumas semanas, a greve se espalharia por diversos setores da economia, por todo o Estado de São Paulo e, em seguida, para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Era a primeira “greve geral” no país.

Historiador Claudio Batalha, da Unicamp: “Não é uma greve que já tivesse bandeiras gerais. Ela começa com questões específicas dos setores que vão aderindo ao movimento grevista, alguns por solidariedade. Depois é que a pauta passou a incluir desde reivindicações relacionadas ao trabalho até reivindicações de cunho político – libertação dos presos do movimento, por exemplo.”

Uma destas questões específicas, menos comentada nos livros de história, era o assédio sexual. Segundo Batalha, parte da revolta das funcionárias do Cotonifício Crespi era o assédio que sofriam dos chamados contramestres, funcionários que supervisionavam o chão de fábrica.

“Isso não era incomum na época. Greves anteriores já haviam começado contra determinado funcionário que tivesse um cargo de chefia e tirasse proveito desse poder”, explica.

Em 1917, a indústria brasileira ia de vento em popa.

Na verdade, os lucros das empresas chegavam a duplicar a cada ano.

“Entre 1914 e 1917, com a Primeira Guerra Mundial, se passou de uma recessão econômica a um superemprego, porque os produtos brasileiros passaram a substituir os importados e a serem exportados”, explica o historiador italiano radicado no Brasil Luigi Biondi, da Unifesp.

“Em 1914, o Cotonifício Crespi lucrou 196 contos de réis. No ano seguinte, o lucro foi de 350 contos de réis. E foi aumentando. Enquanto isso, aumentavam as horas de trabalho.”

Com o aumento da produção, as fábricas brasileiras, que tinham poucas máquinas, vindas do exterior, tiveram que usá-las por mais tempo. Isso significava que os operários passaram a trabalhar até 16 horas por dia, sem aumento de salário.

No final de junho, a paralisação dos operários do Crespi contagiou os 1.500 operários da fábrica têxtil Ipiranga. Em seguida, se espalhou pela indústria de móveis, concentrada no Brás, e chegou até a fábrica de bebidas da Antarctica.

“Em julho, a greve parou a cidade (São Paulo). Havia embates de rua e tentativa de saques aos moinhos que produziam farinha por causa da crise de abastecimento. Muitos foram mortos e feridos nos confrontos com a polícia”, diz Biondi.

O movimento ganhou mais fôlego no dia 11 de julho, quando milhares acompanharam o enterro do sapateiro espanhol José Martinez, de 21 anos.

Ele morreu com um tiro no estômago depois que uma unidade de cavalaria da polícia dispersou manifestantes que quebraram barris de cerveja diante da fábrica da Antartica, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, que noticiou o confronto.

“A partir daí, a greve se alastrou para quase todas as cidades do interior de São Paulo. Campinas, Piracicaba, Santos, Sorocaba, Ribeirão Preto. Até Poços de Caldas, no sul de Minas, que não era uma cidade industrial, teve movimentos de greve”, afirma o historiador.

Em 16 de julho – mais de um mês após o início da paralisação no Cotonifício Crespi – um acordo entre autoridades, organizações trabalhistas e industriais, mediado por jornalistas, pôs fim à greve em São Paulo. Mais ainda não era o fim da greve geral.

“Só em São Paulo a greve de fato terminou com uma negociação única. No Rio e em Porto Alegre, os movimentos tiveram dimensões gerais, mas só terminaram na medida em que cada setor chegava a um acordo com seu patronato. O ritmo de saída da greve foi aos poucos, assim como a adesão”, explica Batalha.

Segundo Biondi, até mesmo na cidade de São Paulo ainda havia categorias entrando em greve no dia 18 de julho, como os pedreiros. Parte dos empresários se recusava a assinar os acordos e queria negociar condições diretamente com os funcionários.

Mesmo com a assinatura dos acordos, a consolidação dos direitos só viria em 1943, durante o regime de Getúlio Vargas.

“O que acontecia muitas vezes na época é que algo era obtido com uma greve, passava-se algum tempo e essa reivindicação voltava para nada”, diz Claudio Batalha.

“Em 1907, também houve uma série de greves pedindo a jornada de trabalho de oito horas. E elas chegaram a diminuir, mas, depois de algum tempo, o patronato voltou a estabelecer as jornadas anteriores. O mesmo ocorreu após 1917.”

A experiência da primeira greve geral também fez com que os empresários se preparassem para enfrentar futuras paralisações – o que tornou novas negociações mais difíceis para os trabalhadores.

“Uma das coisas que levou ao sucesso relativo da greve em 1917 é que as fábricas não tinham estoques. Quando os operários paravam, não havia produtos nas lojas. A partir daí, eles passaram a ter grandes estoques, e podiam permanecer sem funcionar um certo período porque tinham produção para vender.”

Batalha lembra, no entanto, que o acordo só surgiu depois que “a greve atingiu dimensões tais que não tinha mais como controlar o movimento”.

“A primeira tentativa de lidar com a greve foi de repressão. Essa era a tônica do período, tanto que houve mortes. Parte do processo de ampliação da greve, inclusive, se deveu a essas mortes.”

Em fevereiro de 1917, meses antes da greve brasileira, mulheres que trabalhavam na indústria têxtil deram início a protestos e a uma paralisação que teria consequências ainda maiores: a revolução russa.

“Essa greve também é importante porque mostra a conexão do Brasil com o resto do mundo. Naquele ano, greves como aquela ocorreram em diversos países”, diz Luigi Biondi.

Ideologias como o anarquismo e o socialismo marxista, que chegaram a São Paulo principalmente pelos imigrantes italianos, tiveram um papel importante na organização do movimento.

“Por causa da Rússia, eles tinham a ideia de que aquilo poderia levar a uma insurreição dos trabalhadores. Isso não ocorreu, mas a cidade foi tomada. Pela primeira vez isso espantou as elites do país, que começaram a se dar conta de que a questão social urbana era grave e tinha que ser considerada.”

Batalha acha que as correntes socialistas “tinham certa liderança”, mas que sua influência era maior sobre trabalhadores qualificados.

“O que faz com que uma greve funcione é que as pessoas sintam que aquele estado de coisas chegou ao limite. Uma das características importantes de 1917 é que, pela primeira vez, setores que não participavam desse tipo de movimento começaram a participar.”

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