um excerto

Em 2018, o movimento ATTAC [Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos] completa 20 anos. Nascido na França como grupo de pressão a favor da introdução de uma taxa nas transações financeiras internacionais (conhecida popularmente como Taxa Tobin), seu propósito é organizar a sociedade civil para “frear a ditadura dos poderes econômicos, exercida através dos mecanismos de mercado”. Em fins de janeiro, Madri acolheu uma reunião da ATTAC Internacional, com a participação de sua presidente de honra e do Transnational Institute de AmsterdãSusan George. Esta lúcida filósofa e analista política, nascida em Ohio (Estados Unidos), completa 82 anos (desde 1994, possui nacionalidade francesa) e é a autora da célebre distopia O relatório Lugano.

A entrevista é de Marina Estévez Torreblanca, publicada por El Diario, 27-01-2017. A tradução é do Cepat.

Vários países, entre eles a Espanha, disseram que estariam dispostos a implementar uma taxa às transnacionais financeiras internacionais, uma espécie de taxa Tobin como a que é defendida pela ATTAC. Você considera este cenário possível?

Infelizmente, foi a França, meu país, quem evitou que fosse implementada no passado. Mas, parece-me muito positivo que a Espanha tenha se mostrado a favor. Em algum momento, terão que aplicá-la, porque novamente voltamos à questão de que nossas reservas estão sendo roubadas. Assim que as pessoas ficam sabendo, pensam que seu dinheiro pode ser melhor utilizado do que ir para o bolso dos mais ricos do mundo.

Por isso, a informação é tão importante. Quando eu comecei no ativismo e na política, dizíamos “devem sair do Vietnã”. E as pessoas talvez estivessem de acordo, ou talvez não, mas sabiam do que você estava falando. Agora, as respostas são mais longas e complexas. A informação é muito importante e é muito importante seguir repetindo-a.

Os índices de desigualdade estão crescendo, até mesmo quando nossos governos falam de aumento do PIB. Acredita que é possível dizer que a crise econômica faz parte do passado?

É que não acredito que seja uma crise. Uma crise significa algo terminal, significa que você irá se recuperar ou irá morrer, mas não dura nem dez anos. Isto não é uma crise, é uma enfermidade que está sendo fomentada pelas políticas econômicas atuais. Na realidade, a austeridade funciona muito bem para o que foi desenhada: transferir riqueza de baixo para cima. E nos convenceram que é o melhor resultado.

Qual a sua opinião a respeito da ideia de que o desemprego é criado pelos governos e pelos poderes para manter as pessoas com medo, para que não se rebelem?

Não sei se é deliberado criar medo. Mas, ouvi uma palestra de Tony Benn (um destacado deputado trabalhista britânico, falecido em 2014) na qual começava dizendo: “o medo é a disciplina da economia capitalista”. É uma maneira muito elegante de afirmar isto. Se os governos apostam nisso, não sei, porque teriam muito mais êxito e seriam reeleitos, caso lutassem contra o tipo de desigualdade que vivemos em nossos países.

Em meados dos anos 1970, na Europa, as rendas do trabalho eram 70% e as do capital 30%. Agora, as rendas do trabalho são 60% e as do capital 40%. Sendo assim, perdeu-se 10% da riqueza no bolso das pessoas. Os 10% do PIB europeu representam algo como 1,6 trilhão. É muito dinheiro que não vai para o consumo e o investimento europeus, e que não pagará impostos por isso.

Desse modo, não é um mistério que nos últimos anos as pessoas tenham menos para gastar, que as pessoas estejam com pouco dinheiro. Então, a pergunta é pertinente: Os governos fazem esta aposta ou não sabem economia? O certo é que há uma economia equivocada (a da austeridade) que se converteu na bíblia. E para convencer [a respeito] dela, há enormes investimentos em think tanks, em livros, artigos, tribunas universitárias, juízes, instituições religiosas.

Gramsci, nos anos 1920, já disse: “você pode ganhar por meio da violência, mas também por meio de suas cabeças. E para fazer isso precisa usar as instituições”. E isso é o que a esquerda não entendeu e a direita, sim. A esquerda acredita que suas ideias são tão esplêndidas que não é necessário defendê-las (somos generosos, somos simpáticos, defendemos os direitos humanos). Contudo, o problema é que a direita conseguiu enfatizar estas questões de modo que disseram às pessoas e lhes convenceram: “Se você não possui trabalho e é pobre, a culpa é sua. Você não é organizado e merece o que tem”. Grande parte desta mensagem foi interiorizada.

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