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Ela diz que gostaria mesmo é de conversar com um psicólogo. Ah, e você titubeia porque… isso pode ser uma cantada (mas assim, de repente?). Você se perde no diálogo por alguns segundos e perde o diálogo porque se voltou para seus pensamentos que lembram: faz toda diferença se eu a conheço num bar ou no consultório – e ela tem a mesma iniciativa por lá. Então duvido se vou ou não responder àquele comentário no mesmo diapasão que soltou sua nota no ar sufocante que envolve o balcão.

E naqueles segundos-horas vem a conclusão e digo: olha, se quer mesmo que eu ouça você, apareça no consultório amanhã, por volta das dez da manhã.

Ela me deixa.

E a noite continua com uma estranha sensação de eu ter perdido um

“amor líquido”… e certo. E já sabendo que às dez da manhã estarei ouvindo outra pessoa…

Volto-me para o burocrático show do Ten Years After, uns trinta anos depois.

 

 

Outro dia, no mercado.

Fui reconhecido por um “usuário do serviço mental da prefeitura”, ou seja, meu paciente. Nada que pudesse criar um desconforto, mas ele me apresentou à sua mulher, uma mulata libidinosa, linda, deliciosamente linda na flor da idade (“com um cara desses”, diz imediatamente aquele diabinho que nos habita com sua maldade). Ela se mostra algo curiosa a respeito do tratamento do marido e mesmo já sabendo que não lograria obter informações das sessões, deixa escapar (ou faz isso pensadamente) que tem medo de perdê-lo. Ele se faz de encabulado… no fundo parece ter orgulho dela. Eu, por meu lado, faço daquele comentário dela uma pergunta dirigida a ela e quem responde é ele: que bobagem, meu amor, blá, blá, blá.

E não é que o desgraçado fala nas consultas exatamente da amante, uma mulher casada com o chefe da repartição?

 

 

Confissões. Pensei em dar o nome de confissões a estas linhas. A dúvida está em nomear. Nomear é sempre difícil e “muita coisa importante falta nome”, disse certa feita João Rosa na boca de…Riobaldo?…sei lá…. Como nomear por exemplo o fim de um namoro? Como nomear um filho? Como nomear a História Humana, feita de dominação, exploração e guerras? Como nomear o inominável, que é a vida? (ah, que lapso, esta já tem nome: vida, assim mesmo, sem adjetivação).

 

 

Outro dia eu falei em fim de namoro.

Há dois mil anos que filósofos e poetas querem falar não só do fim, mas do começo e do meio. Lembro de Barthes, com seu “Fragmentos do discurso amoroso”.

Pobre de mim que só tenho “discursos de fragmentos amorosos”…

 

 

Comprei e li de uma só vez dois livros do Efraim Medina, enfant terrible colombiano que iconoclasta Shakira e Garcia Marquez.

Cafajeste que desperta a mais pura cafajestice que há em nós.

Algumas passagens dos livros me levaram para o murinho da Bias Fortes: Délzio, Dudu, Magrelo, Alisson, Júlio e vários outros. Uma geração de perdidos que se encontravam naquele muro para nada fazer além de falar de carros, rock n roll e, claro, meninas-mulheres. Estas tão inacessíveis quanto os V8 que amávamos nas revistas.

Restava o rock, que ouvíamos a toda. No meio dos rifs pensávamos naquela pick-up Ford, naquela colega de sala que gostaríamos de seduzir com uma pick-up Ford.

Mas conversávamos mesmo era sobre nossas mães e nossos pais, sempre a nos empurrar para os abismos. (Mentira: não conversávamos sobre isso, era a maconha que falava por nós.)

 

 

(Já disse que odeio publicitários, médicos, juízes, padres e pastores, governantes e governados e polícia, capitalismo e consumismo, ruas cheias, estradas cheias, filas para pagar contas e filas e filas?

Odeio também a modorra de um domingo à tarde!

Tentei ler de novo O Estrangeiro, de Camus. Foi impossível passar das primeiras páginas…)

 

 

Escolhi ser psicólogo porque observava pessoas, seus movimentos, suas gafes e mentiras, sua opacidade que não esconde seus motivos, e também sua eventual transparência; poderia ter sido veterinário, se este não tivesse que cortar a carne. Ou botânico, embora eu já preferisse que meu olhar fosse “de jardineiro”, se me permitem Freire e Brito. E mais me extasiava com a delicadeza do inseto na flor, como, parece, fazem certos pobres poetas pobres.

A escolha então deve ter sido para fazer um inside job e desmascarar todos. Para desmascarar a mim, principalmente.

(Ou talvez a escolha tenha sido apenas porque não queria matemática.)

 

 

(Fim de namoro… fim de namoro…

Você só saberá o que é isso quando estiver ao lado de quem perdeu.)

 

 

Toda a beleza que parece emitir aquela morena é exatamente isso que se vê porque agora você está impregnado de testosterona, está envolto nos seus transbordantes desejos carnais, está a ponto até de ensaiar uma aproximação… ou tudo isso é somente porque já bebeu demais.

 

 

(Antonioni era o meu preferido, principalmente depois que foi nomeado como o “poeta da incomunicabilidade”. Blow up então… Aos quinze anos ver na tela do cinema uma silenciosa bola de tênis onde não havia qualquer bola, então, tudo se tornaria permitido.)

neal-slavin-portugal-photos-16

(foto: Portugal, de Neal Slavin)

Poucos deixaram pedra sobre pedra, como o “robô pederasta” Roberto Piva e os que seguiram baudelairiana via flanando por uma cidade são-paulina imunda qualquer com(o) os “anjos engraxates”, a Virgem “que lava sua bunda imaculada na pia batismal” e os “anjos de Rilke dando o cu nos mictórios”. Poesia experimental para uma vida experimental, única crença do moço. Quem poderia se opor ou quem poderia amparar um quijada como esse? Alguns fodidos nascem para nos dar tais bofetadas…e os amamos.

 

 

Cinza das horas bandeirosas até que a morte o separe de qualquer possibilidade, porra. Dê logo adeus à noite veloz.

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