brazilian bates motel

A história vem a público em janeiro de 1975 com o aparecimento de um corpo, uma pessoa que fora morta em circunstâncias muito estranhas. Era uma jovem que morava em um povoado próximo. O que viria a seguir revelou-se num ritual macabro inimaginável, com o resgate de oito corpos, todos com mesmas marcas de facadas e todos com as cabeças decepadas. Houve também um desaparecido. Ou dois.

Tudo começou após uma chuva torrencial que durou uma semana, fazendo mover terras e pedras e foi isso que desenterrou o corpo.

Um pescador foi o primeiro a testemunhar o achado. Disse em depoimento na delegacia, para onde correu logo que descobriu a vítima, que ao subir um rochedo avistou o que parecia ser um braço ou uma mão. Aproximou-se e levou um choque, disse, já que o que viu, segundo sua descrição, foi todo o corpo nu de uma pessoa, uma moça, sem a cabeça – e pior! com a cabeça entre as pernas. Ele repetia descontroladamente que tudo estava sujo de lama e que teve muito medo e que não sabia o que fazer e que não conseguia olhar para a cena. E não conseguia descrevê-la agora, sentado ali na delegacia. Mesmo sendo testemunha e denunciante, foi rapidamente acusado de ser suspeito de assassinato. Repetidamente os policiais gritavam com ele, acusando-o. Ele já não respondia pronta e acertadamente às perguntas. Caía em contradições – mas estas pareciam deliberadas, para um observador atento. Deixaram-no sair após cinco horas de interrogatório. Era uma estratégia, iriam segui-lo, mas ao se ver livre o pescador desapareceu da região, abandonando mulher e três filhos. (Durante o depoimento, um dos policiais coreu para o local da descoberta para tomar as primeiras providências.)

Logo a notícia se espalhou boca a boca pela vila, provocando pânico e curiosidade na pacata população que até então desconhecia crime tão horrendo.

Aparece outra testemunha e quer descrever o que vira uma semana antes, no local que estavam comentando, quando as chuvas ainda não haviam chegado. Era noite de lua cheia. De longe, de outra montanha, ele vira o que poderia ser uma vela, fixa no chão, uma chama bruxuleando no vazio. Chegando mais perto vira também um casal, ou o que parecia ser um casal, já que ambos os vultos estavam com uma capa que cobria desde a cabeça até os joelhos. Um era bem maior que o outro e assim concluiu ser um homem e uma mulher. (Nenhum dos descritos correspondia às características corporais do pescador, que era franzino e mancava muito.) E carregavam juntos algo pesado e embalado numa capa escura. Queria ver mais perto ainda mas não pôde chegar porque fora avistado. Teve que correr porque uma das pessoas se virou para seu lado e lhe apontou nervosamente o que parecia ser um punhal, um brilhante punhal. Sumiu no mato e estranhamente não comentou com ninguém o que acontecera. Nem voltou ao local.

Na cena da descoberta já se encontram os três policiais, mas nada podem fazer. Teriam que esperar peritos virem da capital. Isolam a área já cheia de curiosos. Têm que fazer um esquema de revezamento como sentinelas. Assim foi combinado e começou a funcionar na primeira noite, mas na segunda o policial que estaria de plantão não foi mais visto. Isso despertou muita curiosidade, e comentários. Sabia-se que este sujeito não era de vida certa. Freqüentava o bordel e bebia sem limites. Era grande e forte e, bêbado, ninguém o enfrentava. Comentários jocosos de uns se juntaram a desconfiança de outros. Diziam que ele deveria estar deitado com Maria Preta, uma prostituta fogosa, ou deveria ter sido morto também.

Chegam os peritos e se debruçam sobre o corpo. Começam a vasculhar a área. A jovem havia sido morta noutro local entre sete ou oito dias antes, avaliaram. Fora golpeada na cabeça e tinha o peito rasgado com algo cortante. O coração fora arrancado. A cabeça, cortada após a morte. Identificada mais tarde, M.J.S., de dezenove anos, era moradora de outra localidade e filha-de-mãe-sem-pai. Costumava ser vista na estrada pedindo caronas em caminhões de um lado a outro e já dormira “naquele hotel lá”, diz um entregador de hortaliças, um dos curiosos presentes à cena, apontando para frente. Às vezes sumia de casa por dias. Fora enterrada envolta numa manta preta. Os peritos descobrem também parafina derretida, indicando que talvez houvesse mesmo sido usada uma vela, conforme depoimento da testemunha ocular. Começam a pensar em algum ritual mágico ou coisa parecida.

Os peritos continuam vasculhando o local e ao longe veem o que se parece uma silhueta de uma construção, a única por ali, logo após umas árvores. Era o hotel mencionado, disse outro alguém.

O estabelecimento havia sido inaugurado apenas um ano antes e ficava um pouco afastado da estrada, isolado na mata em volta. Não distava muito do local da descoberta. Seu dono viera de outro estado e ninguém sabia nada a seu respeito. Não despertara qualquer tipo de suspeita até então, mesmo sendo estranho para o povo local, mesmo sendo uma figura que provocava medo; era muito feio, diziam. Sua mulher era taciturna, de pouco sorriso. O casal tinha um filho pequeno que não chamava a atenção das professoras ou colegas na escola: era apenas mais calado e quieto para uma criança daquela idade.

Os peritos deslocam-se até lá para falar com o administrador, o proprietário. Apenas ele e sua mulher trabalhavam ali. Os hóspedes sempre foram poucos.

O dono, de iniciais J.S.O., de 45 anos e sua mulher, J.M.O., de 46, estão nos seus afazeres. Ela, na cozinha e ele na recepção, tomando notas ou coisa parecida. Ele era mesmo de uma triste figura, estatura mediana parecendo maior devido à magreza, poucos cabelos lisos ensebados, pequenos olhos desviantes, lábios finos e retos e nariz fino pronunciado. Não saía do hotel a não ser para as compras, na sua pequena picape. Não conversava com ninguém além do necessário. Sua mulher era pele e osso, sem vida, seca e cabelos pretos presos. Não se notava cor na face. Não se ouvia sua voz, não se falava dela.

Ele é interrogado como manda a rotina e responde sem vacilar e com calma a todas as perguntas, inclusive sobre a jovem, que ele dissera desconhecer, apesar de confirmar que ela dormira uma noite no hotel com um caminhoneiro, dias atrás. O registro confirma o dito (um telégrafo será enviado solicitando informações a respeito do condutor do caminhão). O proprietário acrescenta que o motorista e a moça lancharam na manhã seguinte e cada um tomou seu rumo, separados.

Enquanto estão no hotel, já saboreando um almoço preparado pela mulher, os peritos ouvem gritos vindos de não muito longe. E muita correria. Outro corpo havia sido descoberto, com mesmas marcas, tendo tido mesmo “enterro”. Interrompem a refeição e saem para investigar. Antes mesmo de chegarem ao local da gritaria, outro corpo aparece. Era o terceiro! E de novo sob o mesmo ritual!

Torna-se necessário criar uma força-tarefa, com mais reforço.

A imprensa, sedenta de sensacionalismo, envia seus repórteres. Curiosos fazem turismo no local.

O hotel nunca tivera tantos hóspedes ao mesmo tempo, mas isso não muda as feições ou os ânimos dos proprietários; para eles nada é diferente, a não ser pela quantidade de lençóis, de refeições, de compras. A criança continua a não ser vista além da escola. No hotel tinha um quarto só para ela, de onde não saia.

Em uma semana o comércio local se enche de consumidores vindos de toda parte, os homens enchem o bordel, os “focas” dos jornais conversam com todos, aproveitam para tomar o cafezinho fresco, já pensando num título para o caso a ser estampado na primeira página. Os policiais fazem seu trabalho, mas nada de pista, nada de evidências sobre a autoria das mortes. Com a descoberta dos últimos cadáveres, escavações são feitas e estas só fazem aumentar o horror: mais três corpos são encontrados e desta vez incluindo o de uma pessoa da localidade: M.K.L.S., de 21 anos, filha de um aposentado inválido que não saía de casa. Era ela quem cuidava de tudo até desaparecer havia uns dois meses, fugida com seu amante, diziam. Seu pai depois desse desgosto não mais falava com ninguém e só fez piorar seu estado de saúde, sendo atendido agora por velhas caridosas. (A dona do corpo é identificada imediatamente pelo chinelo que sempre usava, pelo bracelete único que todos conheciam e pela correntinha que acharam no local. Os peritos não se davam por satisfeitos, mas a voz do povo não deixava dúvidas. Era mesmo Nenzinha, como era chamada, pobre coitada. Quem teria feito isso com ela… e com todos os outros?)

Dos corpos encontrados, agora seis, todos com morte parecida, apenas dois não eram de jovens moças, mas de homens de fora. Invariavelmente, as roupas estavam ao lado dos corpos nus, como se passadas e cuidadosamente dobradas. O peito, sempre sem o coração. O trabalho de perícia teria que montar um quebra-cabeça. Teria que ler o que se escrevia com sangue.

Dois meses se passam. Já parecia rotina achar corpos naquela localidade e isso se torna aparentemente normal. Toda a região fora vasculhada e cavoucada. As coisas pareciam voltar à lentidão diária de antes. A imprensa vai embora. Os comentários se tornam repetitivos, assumem ares de piada de mau gosto na boca daquele povoado abandonado à própria sorte. O sumiço do pescador e do policial já não desperta atenção, parece esquecido. As conversas se voltam novamente para o vizinho, a filha do fulano, coisas do tipo e limitadas da primeira à última casa da vila. Nenhum assunto ousa ir mais além da curva da estrada, nunca ultrapassa as montanhas em volta. Nada de novo perseguia aqueles homens, aquelas mulheres…

Um investigador é destacado para permanecer na localidade, os outros voltam para a capital. Ele começa a juntar evidências, indícios e com seu experiente faro de polícia coloca o dono do hotel como primeiro suspeito da lista. Os dois homens mortos também estiveram lá hospedados. Eram vendedores de bugigangas.

Em um dos quartos do hotel há uma janela lateral, o que não parecia normal se se olhasse a arquitetura no geral. Não havia explicação para aquela saída. Descobre-se depois que ficava naquela janela uma rampa de madeira que dava embaixo para a cozinha e que fora retirada do local há pouco, logo em seguida ao descobrimento da primeira vítima. A rampa havia sido usada e continha marcas de sangue. O proprietário, interrogado novamente (isso se deu várias vezes) e respondendo pela sua mulher, disse que ali, naquela mesa, os animais eram mortos para serem cozidos. Era fato que a tampa de madeira, uma tábua, qual uma mesa, agora estava disposta solta sobre pilares na cozinha, mas se encaixava perfeitamente com a construção abaixo da janela e ali se tornava

uma rampa. Exames posteriores confirmaram que o sangue era mesmo de animal. Porque a madeira havia sido transferida de local, a resposta do proprietário não foi muito convincente para o investigador. Lá em cima, onde ficava a janela, havia um compartimento azulejado, parecendo também uma outra cozinha.

O investigador se hospeda no hotel determinado a descobrir qualquer prova que incriminasse o proprietário. Ficaria o tempo necessário.

(Sem maiores alardes, mais dois corpos são encontrados. De novo, duas jovens, e desta vez aparentemente mortas no mesmo instante, enterradas juntas e filhas da redondeza. Agora já são oito corpos. Oito pessoas que tiveram o azar de estar frente ao pior pesadelo, o último das suas vidas. Oito pessoas morreram em circunstâncias ainda misteriosas para a polícia. Todos os corpos seguindo o mesmo ritual macabro. Todos confirmando um cruel massacre em série perpetrado pela mesma pessoa, ou mesmas pessoas. Pequenas notas na imprensa continuam a sair, agora nas páginas finais dos tabloides: as pessoas se acostumam rápido aos acontecimentos e com esse não seria diferente. Não foi. Para os poucos leitores dos periódicos regionais parecia apenas uma novela em capítulos nas colunas policiais, típico folhetim.)

Certa noite no hotel o investigador acha que tem sorte quando ouve pela porta a conversa do casal, já instalado nos aposentos de dormir. O marido está repreendendo a mulher, fala da jovem caroneira, a mesma que havia se hospedado lá. Não é possível entender bem ou mesmo ouvir bem o que dizem, mas o certo é que a conversa tem que ver com a jovem – disso o investigador tem certeza. Ele volta para seu quarto quando a conversa parece terminada.

De madrugada ouve passos de alguém passando pelo corredor. Levanta-se à espreita. É o dono saindo com uma vela apagada na mão. Ele está enrolado numa espécie de capa. A escuridão é total. O frio é congelante. Segue o insone personagem. É o dono do hotel, tem certeza. Os dois estão fora. Atrás do prédio passa um caudaloso rio. Suas águas são fortes e barulhentas – e à noite assustam. O suspeito sobe o rio. O investigador o segue. O homem entra numa pequena construção e é quando acende a vela. Lá dentro abre um baú e retira alguma coisa, objetos pequenos. Sai e tranca o quarto, certificando-se de que está mesmo trancado. Voltam os dois para o hotel, para os respectivos quartos. O investigador está certo de que não fora visto. O personagem de capa, de que não fora seguido.

O policial não dorme o resto da noite e faz mentalmente suas conjecturas. Na manhã seguinte bem cedo se dirige para o mesmo quarto isolado do lado de fora, rompe o cadeado e tem acesso ao baú. Abre-o e encontra muita coisa: pertences pessoais entre ferramentas, parafusos, fios, pregos, o típico guardado para consertos de emergências. Usa sua experiência para separar o que tem valor do que não se encaixa na sua investigação. Está tudo no chão, mas há pouca luz. Decide abrir uma janela de madeira. Quando consegue, se dá conta de que está sendo observado pelo vidro da mesma janela lateral lá em cima. Não reconhece quem o olhava e que se escondeu rapidamente.

Tira fotos dos objetos pelo chão e volta para o hotel, para o café da manhã.

É servido pela mulher que impassível não lhe dirige o olhar. Pede para conversar com o casal na recepção. O filho passa com roupas e pastas escolares. Sai sem se perturbar, sem se dar conta do estranho no hotel (foram muitos, nos últimos dias).

A conversa desta vez é mais incisiva – e incriminatória. Após algumas perguntas que não parecem ter respostas convincentes, após o que pareceu ser recusas dos interrogados, o investigador acusa ambos de serem cúmplices de assassinatos em série e lhes dá ordem de prisão.  Faz um telefonema e chega uma viatura para levar o casal que não reagiu em momento algum.

Toda a comunidade toma conhecimento do que está acontecendo e corre feito manada para a porta do hotel. Alguns chegam a tempo de verem o espetáculo da entrada dos acusados no carro. Em pouco tempo muitos já se amontoam ali. Começam os impropérios contra o casal. Alguns querem avançar sobre os dois, querem linchá-los, sendo impedidos com dificuldade pelos policiais. Ouve-se uma ordem de pôr fogo no hotel. Bastou essa faísca e todos se transformam em autênticos vândalos com armas surgidas do nada. Avançam contra o imóvel, destroem as portas que encontram fechadas (a da entrada, tipo sanfonada, estava aberta, sendo poupada por isso). Móveis são jogados lá de cima e queimados embaixo, papeis, lençóis, roupas, pratos e talheres, travesseiros e livros, muito livros, tudo alimenta a fogueira que já mostra sua fúria. Do hotel, nenhum vidro restou intacto. Tudo que pertencia ao casal é destruído em poucos minutos parecendo aplacar a ira da multidão furiosa. A pequena picape branca usada nas compras dos víveres foi destroçada a ponto de não mais servir para nada. . Após a catarse, cada um se volta para seu cotidiano. Todos acham que fizeram a coisa certa: suspeitaram (muitos já diziam que o dono era o assassino, só podia ser ele), julgaram e condenaram. Um estranho e coreografado espetáculo. Alguns vão rindo em meio à fumaça do incêndio…

* * *

O julgamento é concorrido. Todos querem ver de perto a condenação, todos querem ser testemunhas, querem participar. A comarca nunca fora tão atraente. Dentro, na sala do júri, o ambiente parece eletrizado, um enorme burburinho, todos falam ao mesmo tempo, todos têm seu veredicto, alguns fazem suposições, conjecturas, outros justificam suas certezas. A imprensa reaparece, vendedores ambulantes ocupam as calçadas, carros não conseguem passar na rua. Famílias inteiras comparecem, os mais velhos carregam Bíblia, terço, crucifixo.

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Na foto vê-se um pouco da agitação daqueles dias

No tribunal são apresentados como prova contra o casal os pertences achados no baú. De cada vítima identificada, um ou mais objeto pessoal era mostrado. E confirmado por parentes ou conhecidos (a cada confirmação o juiz tem dificuldade de conter a multidão, tem que ameaçar expulsá-la). Só não se apresenta nenhum objeto pertencente à última vítima a ser morta, a primeira jovem a aparecer, mas todos estão convencidos de que fora os objetos dela que o dono do hotel havia retirado do baú na noite em que fora seguido pelo investigador, na mesma noite em que ele discutira com a mulher a respeito do assassinato da jovem. Nada confirma isso, contudo. Aliás, as palavras da conversa ouvida naquela noite não puderam ser transcritas nos autos, já que o policial não escutara bem, como ele mesmo dissera.

O casal não nega nenhuma acusação, não reage ao pronunciamento dramático do promotor, não se mostra arrependido. Mas não deixa de se olhar no julgamento. Eles olham-se como se se amassem e isso parece um atrevimento: como podem amar e ao mesmo tempo matar daquele jeito! Alem disso, fica patente que o casal também praticava sacrifícios com animais, feitos no quarto que parecia uma cozinha, o mesmo da janela lateral, o mesmo que tinha a rampa de madeira. Marcas de vela derretida cobriam o chão. Fora encontrado neste quarto uma edição de bolso de As flores do mal, de Baudelaire, único livro poupado do vandalismo por ter sido recolhido como prova (que tipo de pessoa lê versos tão malditos?). E estava sujo de sangue. Só podiam mesmo ser feiticeiros. E assassinos crueis, perversos!

São condenados à pena máxima, a anos de prisão, o que se mostrou desnecessário já que em apenas quinze meses eles morrem nos porões da lei. A diferença de tempo entre as mortes vem destacada nos comentários: uma hora apenas! E estavam a quilômetros de distância um do outro! Nunca mais se falaram desde que foram condenados. Nunca mais se viram ou se olharam com mesma ternura de antes. Ao final daqueles meses de confinamento, a figura do proprietário parecia a de Nosferatu, era igual um vampiro, como disseram; a mulher, parecia ter encolhido nos próprios ossos. Tiveram morte noturna e ambos de causas desconhecidas. E pareciam serenos.

O casal nunca negou qualquer acusação, mas nunca admitiu ser o autor das mortes e nunca comentou sobre isso nos meses de prisão.

O filho, desde a condenação dos pais, fora internado num abrigo para menores abandonados. Não se sabe como reagiu a tudo. Não se sabe como lhe contaram a morte da mãe e do pai (alguns dizem que ele não se alterou ao saber disso, outros afirmam o contrário, que ele se desesperou). Não se sabe como foi sua passagem por lá. Não se soube mais do filho: aos quinze anos, época que já se parecia fisicamente ao pai, fugiu da instituição.

* * *

Mais tarde, anos mais tarde, comentários dos mais velhos na vila perto do hotel dão conta de que o casal visto na noite de lua cheia era formado por uma pessoa de aspecto franzino e que mancava. A descrição, agora suscitada, coincide com a do pescador que fugiu após ser interrogado (sua família também sumiu misteriosamente do povoado logo depois e nunca mais se teve notícia da mulher e dos filhos, de ninguém). Ele e sua mulher eram muito populares na região, estavam prontos para ajudar em qualquer situação, usavam de sabedoria ancestral, de ervas, participavam de reuniões comunitárias e tinham certa ascendência sobre o povo local. Suas opiniões eram sempre ouvidas, suas sugestões, acatadas. Até o padre os ouvia. Alguém se lembrou de que às vezes o pescador mancava, às vezes andava normalmente, quando estava sozinho.

E outro aspecto passou despercebido a todos, revelado agora após um despretensioso comentário: em todos os locais dos crimes se viam pegadas de um sapato usado por policiais. Ficaram trilhas, apareciam aqui e ali bem definidas, tinham aparências recentes, mas também mais antigas, já no barro seco. E pensando bem, o policial sumido e que amava a Maria Preta, o mesmo que usava e abusava de suas prerrogativas, estivera envolvido com coisas erradas (tipo magia ou algo parecido) lá pelos confins do norte do estado. De lá fugira para se fixar no povoado. Ninguém também se lembrou de lembrar que esse policial e o pescador eram vistos frequentemente pescando juntos. Sempre os dois e só os dois. Porque ninguém comentara isso tudo na época permanece um mistério. Ou nem tanto, já que ele era conhecido e temido por ameaçar as pessoas mais humildes. Quem ousaria…?

Vários anos se passaram, muitos dos que viveram aqueles dias estão mortos. Do prédio só restam ruínas tomadas por vegetação; pelo caminho que leva à portaria, cuidadosamente planejado, nenhum veículo voltou a transitar, os jardins circundantes outrora floridos estão tomados hoje por erva daninha. A fama do hotel agora desperta medo e ninguém quer chegar perto. É assombrado, dizem. Ao lado, uma rodovia construída posteriormente é usada por ônibus, caminhões, automóveis, que passam ignorando o drama que ali se desenvolveu um dia. O silêncio toma conta de tudo, exceto pelo caudaloso rio sempre descendo indomável seu caminho.

* * *

Entretanto, o mais contundente, o mais aterrador desse relato é que no instante em que se conta esta história um novo corpo foi encontrado perto dos locais dos crimes do passado. Um corpo de uma jovem! E morta e enterrada nas mesmas circunstâncias de antes! Trinta anos depois, um sangrento ritual parece estar pronto a se repetir.

As buscas por autoria já se iniciaram. Dão conta de que uma pessoa com o mesmo biótipo do proprietário de antes fora vista perambulando perto do hotel.

(Sobre o livro de poesias encontrado no hotel, soube-se que o proprietário havia sido professor de português anos antes de se mudar para o povoado e de abraçar outro ofício. Ele gostava de poesia e seu filho era o melhor aluno exatamente de língua portuguesa. Soube-se também que o casal se mudara para aquele novo sítio porque a mulher precisava de ar puro para seus pulmões tísicos. Soube-se ainda que eles se amavam.

No livro estava em destaque no poema “Ao leitor”, sublinhado com tinta vermelha, a passagem abaixo:

Sempre tolice e erro, culpa e mesquinhez

Trabalham nosso corpo e ocupam nosso ser,

Aos remorsos gentis, nós damos de comer

Como o mendigo nutre sua sordidez.

Frouxo é o arrependimento e tenaz o pecado)

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