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Em apenas quinze minutos e uma long neck sua paciência se esgota.

Foda-se, pensou. Levanta-se e liga para sua namorada. Luiza não atende, nem depois da terceira tentativa.

_ Porra, merda, puta que pariu…

Sem direção ele sai daquele bar agora sufocante e barulhento. Andar pelas ruas e trombar com os desvalidos de sempre se converte em exercício reparador. Está melhor do que os pobres coitados.

Não hesita, vai para casa.

Entra e segue para a escrivaninha. Vários livros com leituras iniciadas estão displicentemente colocados, espalhados. Todos têm um marcador nas páginas visitadas pela última vez. Qual deles seria adequado agora, qual caberia agora no seu desespero? Pensar nisso o faz se sentir mesquinho, pequeno: enquanto o mundo se desfaz em ataques sangrentos promovidos por forças ocidentais unidas em torno de objetivos nada justificáveis a não ser por motivos financeiros-econômicos, provocando ataques terroristas como resposta, enquanto existem locais pontuais no mundo, países pobres cuja população vive em condições insustentáveis, ele se preocupa com sua vidinha. Enquanto seu trabalho contribui para os ganhos das mesmas corporações que agitam sua ideologia como a certa, ele está agora tentando achar uma saída para seu ego doente. E as atrocidades então têm seu dedo diário como cúmplice. É cúmplice por cada gota de sangue derramado em toda parte do mundo. Cada suor descendo pela testa de cada trabalhador condenado a uma vida que se esvai diariamente traz sua culpa. Não tem como negar. Não pode fugir desta realidade. É comprovadamente culpado. Seu bem-estar vem manchado porque doenças e mortes dos outros são o preço pago, vem no seu salário. O que lhe estranha contudo ao concluir que assim é, fica sendo sua falta de vontade de mudar, se não o mundo, o seu mundo. Teria escolha? Acaso pode largar seu emprego financista e começar de novo em bases novas? E mais importante: teria como escapar e salvar outros de um destino previamente escrito? Como enfrentar um mundo no qual as corporações se tornaram leviatãs e necessárias? Talvez denunciando o que sabe dos bastidores…

_É, é isso…claro, sei das falcatruas…sei quanto e quando, grita sozinho na sala. Levanta-se enérgico e dá umas voltas pelo cômodo. E sabia mesmo de acordos, contratos, acertos de propinas de muitos executivos. Sabia de coisas que no mínimo levantariam investigações de autoridades independentes, que comprometeriam empresas e empresários já indiciados em outros processos. Sabia destas coisas e sabia de documentos que as comprovariam.

_Documentos!

Corre para o quarto, abre uma gaveta do armário, remexe os papéis guardados e encontra um grosso envelope, embaixo de tudo. Escolhe este e joga todo o conteúdo em cima da cama. Animado, corre para a cozinha e abre a geladeira. Pega uma cerveja e antes de voltar para o quarto toca o interfone. Atende e lá embaixo na portaria está um velho amigo. Não era a hora, mas resolve abrir assim mesmo. Espera que o sujeito suba e abre a porta do apartamento, onde está esperando a visita.

O amigo sai do elevador e caminha rápido. Tira uma arma da cintura e dá dois tiros certeiros que acabam com a vida infeliz de alguém que parecia decidido a denunciar um sistema.

O que se vê em seguida é uma sala de controle com vários monitores trazendo imagens de câmeras de segurança. Uma mostra uma cama com papéis espalhados por cima, outra, uma cozinha de um apartamento e uma outra ainda mostra uma sala, um corpo caído na porta de entrada e sangue ao redor. Nesta imagem se vê também uma cerveja recém aberta posta na mesa.

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