amantes

Ele chegou antes.
Desceu do ônibus naquela estação no meio do nada já ciente de que a espera seria certa. Não havia qualquer outro veículo no lugar. Na verdade, ninguém além do motorista (caminhando firme para o bar) e uns poucos gatos pingados se espichando, seus companheiros de viagem até ali. À frente, até onde a vista alcançava, a estrada, o cerrado, a mesma mansidão e silêncio dos lugares perdidos no vazio. E um pouco de vento. Ora aqui, ora ali.
Poderia preencher o tempo imaginando como será o encontro quando ela chegar, onde dormiriam e o que fariam com aquele desejo acumulado. Encontrar-se com ela longe de qualquer rotina, de qualquer lugar comum é mesmo uma chance única, conclui satisfeito.
Toma um café e senta num banco de madeira.
Após vários cigarros aparece na rodovia o que devia ser o ônibus dela. Não dá para saber ainda, está anoitecendo. O motorista toma o desvio e se dirige para a estação. A aproximação do veículo faz disparar seu coração. De repente é o corpo dele que fala. A volta que o ônibus tem que fazer para estacionar parece interminável. Agora já dá para ler de onde ele vem e é exatamente o que tem que estar escrito ali: “V.”
O motorista finalmente estaciona, desliga o motor e abre a porta.
Ao vê-la descer do veículo, logo a tem nos braços. Se abraçam tão firme que um sente o pulsar no peito do outro. Se beijam tão avidamente quanto permite o local.
_Demorou, Delícia, diz ele.
_Saudades, responde ela com os olhos lacrimejados, vamos sair daqui.
Saem os dois. Não sabiam para onde, já que não conheciam o lugar. Mas sabiam para quê.
Encontraram um pequeno hotel de beira de estrada. Servia.
Havia algum tempo desde que se viram pela última vez. Tempo de muitas saudades, de uma grande falta, tempo no qual somente trocas eletrônicas de mensagens faziam uma ligação entre eles. Um tempo que só fez crescer a vontade de se amarem novamente: uma noite inteira, o dia seguinte, e mais e mais, parecia que nunca ficariam satisfeitos.
O hotelzinho era uma construção barata, visando apenas aos lucros. Conforto? Seria pedir demais.
Entram e pagam por um quarto.
Logo estão lá dentro. Beijam-se, agora sem pudor.
Amam-se sem razão, sem medida, a noite toda. Nos últimos anos vinham se encontrando por inúmeros pretextos, repetidamente. Insaciavelmente.

O dia já começa. Pelas frestas de uma janela entra uma luz ainda tímida. Ela nos seus braços, como sempre fazia após se amarem, dormia tranqüila, nua, linda, jovial. Ele contorna as curvas dela, de leve, com a ponta dos dedos da mão livre. A noite fora perfeita, ou quase, já que ele não conseguira dormir. Fora tomado por uma premonição, uma preocupação, quase uma certeza. Olha para o teto desenhado por manchas de chuva e pensa nisso. Pensa que talvez não a visse novamente, talvez ela não voltasse a ser sua. Talvez seus rumos tomassem direções opostas na rodovia lá fora. Abraça sua amante como se já a perdera. Ela acorda e eles se amam mais ainda.
É só até esse momento que ele quer se lembrar agora. Nada mais vale a pena ser trazido, conclui. Guarda com carinho esta última noite. Sente o mesmo gosto da última manhã em que foram amantes. E como se amaram.
Chegaram a se ver novamente, se cumprimentaram. Nunca mais se amaram.

/////////trilha para a leitura das “memórias” acima (enquanto possível ouvi-la, antes que a proibam):

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